segunda-feira, 5 de outubro de 2026

“Porque o exercício deve fazer parte da prescrição médica”


Por: José Morais

Durante muitos anos, receber o diagnóstico de uma doença hematológica significava, quase automaticamente, ouvir a mesma recomendação: repousar, evitar esforços e reduzir ao máximo a atividade física. Embora existam momentos em que o descanso é indispensável, transformar essa orientação numa regra permanente pode trazer consequências tão preocupantes quanto aquelas que se pretende evitar.

Hoje, a realidade é diferente. A evidência mostra que o exercício físico adaptado à condição clínica pode assumir um papel relevante no percurso de recuperação de pessoas submetidas a tratamentos hemato-oncológicos. Não substitui medicamentos, quimioterapia ou outras intervenções terapêuticas, mas pode ser um complemento decisivo para melhorar a funcionalidade, a independência e o bem-estar.

Os efeitos da doença e dos tratamentos raramente desaparecem quando termina um internamento ou uma fase terapêutica. Muitos doentes continuam a enfrentar fadiga persistente, diminuição da força muscular, anemia, alterações do equilíbrio, neuropatias e dores que condicionam as atividades mais básicas do quotidiano. Levantar-se da cama, tomar banho ou subir alguns degraus pode transformar-se num desafio diário.

É precisamente nesse contexto que a inatividade se torna um adversário silencioso. Quanto menos a pessoa se movimenta, maior tende a ser a perda de capacidade física. Essa diminuição gera mais dificuldade nas tarefas diárias, aumenta o cansaço e contribui para um ciclo que fragiliza ainda mais o organismo.

Perante esta realidade, a pergunta não deveria ser se o doente está autorizado a fazer exercício. A verdadeira questão é identificar qual o tipo de movimento mais adequado, seguro e benéfico para cada pessoa, tendo em conta o momento da doença, os tratamentos em curso e os seus objetivos funcionais.

Tal como acontece com qualquer intervenção clínica, não existem soluções universais. Cada plano de exercício deve ser construído de forma individualizada, respeitando as limitações, capacidades e evolução do doente. Em determinados períodos, pequenas sessões com pausas frequentes podem ser suficientes. Noutras fases, será possível aumentar progressivamente a intensidade e a duração do treino.

Neste processo, o fisiologista do exercício assume um papel cada vez mais relevante. A sua intervenção vai além da simples recomendação para “ser mais ativo”. Envolve avaliar a condição física, detetar fatores de risco, definir objetivos concretos, selecionar exercícios apropriados e monitorizar a evolução de forma contínua. Trata-se de acrescentar conhecimento especializado a equipas multidisciplinares que trabalham em conjunto para promover uma recuperação mais completa.

Contudo, persistem desafios importantes relacionados com o acesso à reabilitação. Nem todos os doentes vivem perto de centros especializados, possuem facilidade de deslocação ou dispõem dos recursos necessários para frequentar programas presenciais. É por isso que as soluções digitais e comunitárias têm vindo a ganhar importância crescente.

Projetos desenvolvidos em Portugal demonstram que a combinação de exercício supervisionado à distância com apoio psicológico pode alcançar elevados níveis de participação e adesão. Estas iniciativas mostram que é possível aproximar os cuidados de saúde das pessoas, independentemente da sua localização ou condição económica.

A tecnologia, por si só, não substitui profissionais de saúde nem equipas clínicas. Contudo, pode ser uma ferramenta poderosa para eliminar barreiras e levar acompanhamento especializado a quem mais dele necessita.

Talvez tenha chegado o momento de deixar de encarar o exercício físico como uma recomendação secundária. Nas doenças malignas do sangue, o movimento pode representar muito mais do que atividade física. Pode significar recuperação, autonomia, confiança e qualidade de vida.

Porque tratar a doença é fundamental. Mas ajudar o doente a recuperar a sua vida depois dela é igualmente uma prioridade. E essa recuperação passa, inevitavelmente, por colocar o movimento no centro dos cuidados.