Por: José Morais
As cheias que arrastam carros,
os ventos que destroem infraestruturas, bairros submersos em poucas horas e
serviços essenciais em colapso deixaram, nas últimas semanas, um retrato
perturbador em Portugal. Não se trata de um acaso meteorológico nem de um episódio
excecional. É o sinal claro de que a emergência climática já se transformou,
silenciosamente, numa emergência sanitária e continuamos a responder como se
fosse surpresa.
Não podemos impedir todas as
tempestades, secas ou ondas de calor. Mas podemos e devemos preparar-nos para
os seus efeitos. O problema é que persistimos numa leitura curta da realidade,
tratando fenómenos extremos como incidentes isolados, quando eles fazem parte
de uma mudança estrutural do clima, do território e da saúde das populações.
Hoje, falar de saúde pública
sem falar de clima é ignorar uma parte essencial do problema. As alterações
climáticas já não afetam apenas ecossistemas ou economias locais: estão a
redesenhar o mapa das doenças. O aumento da temperatura média, a instabilidade
dos regimes de chuva, a degradação ambiental e a pressão sobre habitats
naturais criam condições ideais para a circulação de agentes patogénicos e para
a expansão de vetores transmissores de doença para regiões onde antes não
existiam.
Nada disto acontece por acaso.
As chamadas doenças emergentes e reemergentes são o resultado direto de
desequilíbrios ambientais profundos. Invernos mais amenos prolongam a atividade
de mosquitos e outros vetores, alargando os períodos de risco. Espécies
adaptam-se a novos territórios, barreiras naturais desaparecem e a proximidade
entre humanos, animais e patógenos aumenta. O verdadeiro perigo não está apenas
na presença dessas doenças, mas na insistência em encará-las como eventos
pontuais, reagindo apenas quando o surto já está instalado.
É aqui que o sistema revela
uma das suas maiores fragilidades. As crises sanitárias continuam a ser
tratadas como episódios desconectados do contexto ambiental que lhes dá origem.
A resposta surge tarde, quando os hospitais estão sob pressão, os serviços de
saúde sobrecarregados e as comunidades já afetadas. Esta abordagem reativa,
fragmentada entre setores, normaliza a ideia de que a crise é inevitável
quando, na verdade, muitos dos seus impactos são previsíveis.
Neste contexto, o conceito de “Uma
saúde” deixa de ser um jargão académico e impõe-se como uma ferramenta prática
de antecipação. Reconhecer que a saúde humana depende da saúde animal e do
equilíbrio ambiental permite identificar sinais precoces, compreender padrões e
agir antes da emergência. É esta leitura integrada que permite passar da reação
para a prevenção, do improviso para a estratégia.
As recentes tempestades e
inundações mostram que não enfrentamos apenas um desafio climático. Estamos
perante um teste à forma como organizamos o território, protegemos os
ecossistemas e articulamos políticas públicas. A separação entre saúde humana,
saúde animal, ambiente, planeamento urbano e proteção civil fragiliza qualquer
resposta. O conhecimento existe. O que falta é ligar os pontos e construir
pontes entre áreas que continuam a funcionar em silos.
Repensar políticas públicas à
luz desta realidade exige ir além da lógica da urgência e da resposta clínica.
Implica rever modelos de urbanização, gestão da água, ordenamento do
território, vigilância ambiental e educação para a saúde. Exige colaboração real
entre governos, autarquias, comunidade científica, setor privado e sociedade
civil. Prevenir custa menos financeiramente e socialmente do que reparar danos.
Neste novo cenário, a
prevenção deixa de ser um ideal abstrato para se tornar uma necessidade
prática. Não podemos controlar todos os fenómenos extremos, mas podemos reduzir
drasticamente os seus impactos se aceitarmos que a saúde é um ecossistema
interdependente, sensível às decisões que tomamos hoje.
O futuro da saúde não se
decide apenas nos hospitais ou nos laboratórios. Decide-se na forma como
cuidamos do ambiente, protegemos os animais, planeamos as cidades e antecipamos
riscos conhecidos. Continuar a reagir a crises anunciadas é uma escolha política
e coletiva. Antecipá-las, com visão integrada e estratégica, é o desafio que já
não podemos adiar.

