Por: António Marrucho
Fotos: Luis S Gonçalves
Um fim de semana e tanto, 18 e
19 de abril! Vários municípios do Pas-de-Calais sediaram as cerimônias que
marcaram o 108º aniversárioth aniversário da Batalha do Lys, um episódio
importante da Primeira Guerra Mundial ocorrido em 9 de abril de 1918. Essas
comemorações, marcadas pela emoção e meditação, reuniram autoridades civis e
militares francesas e portuguesas, associações de veteranos, estudantes e
cidadãos que vieram homenagear a memória dos combatentes pela liberdade caídos.
A primeira cerimônia foi
realizada no cemitério militar português em Richebourg, um grande local de
lembrança onde muitos soldados da Força Expedicionária Portuguesa (CEP) estão
sepultados. A partir das 10h30, os porta-bandeiras e a guarda de honra tomaram
seus lugares, antes da chegada das autoridades acompanhadas pelos chefes do
estado-maior dos exércitos francês e português.
Após as honrarias militares, a
cerimônia foi inaugurada com vários discursos, incluindo os do General Joaquim
Chito Rodrigues, Presidente da Liga dos Veteranos de Portugal, do Prefeito de
Richebourg Gauthier Patoux e do Ministro da Defesa português, Nuno Melo.
O destaque da manhã: a leitura
de poemas por alunos das escolas Marcel Lejosne e Sacré-Coeur, ilustrando o
desejo de transmitir o dever de lembrança às gerações mais jovens. A cerimônia
continuou com uma cerimônia de deposição de coroas, com a presença de várias
autoridades e associações franco-portuguesas.
Uma cerimônia religiosa,
seguida de um minuto de silêncio e a execução dos hinos nacionais francês e
português, encerrou essa primeira homenagem solene.
Após a assinatura do livro de
visitas pelas autoridades presentes, uma placa em homenagem ao primeiro guarda
do cemitério, João Gaspar, foi inaugurada pelo Ministro da Defesa de Portugal e
pelos iniciadores dessa bela homenagem, José Carlos Durão e Sergio Durão,
autores do livro "João Gaspar, o primeiro guardião do Cemitério de
Richebourg".
La
Couture: a memória compartilhada
Às 12h15, a comemoração
continuou em frente ao memorial de guerra em La Couture. Os discursos das
autoridades recordaram o compromisso dos soldados portugueses ao lado das
forças aliadas e a importância de preservar essa memória comum.
Os alunos da escola
Saint-Exupéry então interpretaram a canção "Grândola, Vila Morena",
um forte símbolo de liberdade, trazendo uma dimensão intergeracional à
cerimônia.
Como em Richebourg, uma
deposição de coroas, seguida de um momento de meditação e hinos nacionais,
pontuou a cerimônia, antes de convidar os participantes a continuar as
homenagens em Arras, em particular em Notre-Dame de Lorette.
Um vinho de honra foi servido
à população e aos participantes da cerimônia. Durante esse momento convivial,
cinco personalidades receberam medalhas da Liga dos Combatentes em
reconhecimento ao trabalho realizado no campo do dever de lembrança: um oficial
português, Carlos Pereira, diretor do LusoJornal, Aurore Descamps Ronsin,
presidente da Liga des Combattants de Lillers, pesquisador, António Marrucho,
jornalista do LusoJornal, e Marc Demeure, neto de João Gaspar, membro da
Comissão de Sepulturas da Grande Guerra e primeiro guardião do Cemitério
Militar Português de Richebourg, condecoração póstuma.
As
novidades simbólicas: Loreto, Anel da Memória, Campanário de Arras
Na tarde de sábado, 18 de
abril, por iniciativa do Cônsul Honorário de Portugal nos Hauts-de-France, foi
organizado um programa inovador e simbólico: uma cerimônia religiosa celebrada
pelo Bispo das Forças Armadas Portuguesas, D. Sérgio Diniz, em Loreto, uma
visita ao Anel da Memória onde estão inscritos 2.266 soldados portugueses que
morreram entre o início da Primeira Guerra Mundial e o dia da libertação, 11 de
novembro de 1918.
No final da tarde, o
historiador e escritor Filipe Ribeiro de Meneses, irmão do embaixador português
na França e neto de um oficial português da Primeira Guerra Mundial, proferiu
uma conferência nos nobres salões do belo Campanário de Arras, cidade condecorada
com a Ordem Portuguesa da Torre e Espada ao grau de Cavaleiro em 1935. Uma
palestra muito bonita, com uma visão um pouco diferente da descrição usual da
participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial, ele que escreveu "De
Lisboa ao Lys" baseado no manuscrito de seu avô e em documentação inglesa.
Boulogne-sur-Mer
e Ambleteuse: homenagem estendida
No dia seguinte, as
comemorações continuaram em Boulogne-sur-Mer, depois em Ambleteuse, com uma
homenagem especial prestada à Cruz Vermelha Portuguesa. Este último havia
montado um hospital de campanha na comuna de Ambleteuse para cuidar dos doentes
e feridos, sobreviventes da batalha.
Deve-se lembrar que, além do
Cemitério de Reagrupamento Militar de Richebourg, com suas 1.831 lápides, 44
soldados e oficiais portugueses estão enterrados no Cemitério Leste de
Boulogne-sur-Mer.
Discursos de autoridades
eleitas locais, representantes do Estado e autoridades militares portuguesas
recordaram o papel essencial do apoio médico nesse conflito mortal. As
cerimônias eram pontuadas por deposição de coroas, momentos de meditação e
homenagens musicais.
Vale mencionar a passagem das
autoridades civis e militares pelo Cemitério Ambleteuse e sua cruz portuguesa,
onde mais de 300 soldados portugueses foram enterrados antes de serem exumados
e reenterrados em Richebourg.
Em Ambleteuse, a liberação de
pombos, símbolo universal de paz, encerrou essa sequência comemorativa em uma
atmosfera ao mesmo tempo solene e esperançosa.
Um Porto honorário foi
realizado, com trocas de presentes seguidas de uma refeição convivial entre as
autoridades civis e militares.
Um dever
de memória viva
Deve-se notar que as
cerimônias foram muito bem organizadas, resultado de múltiplas reuniões entre
as autoridades francesas e portuguesas.
Por meio dessas cerimônias,
França e Portugal reafirmam seu compromisso com uma memória compartilhada e
valores comuns: liberdade, justiça e paz. Mais de um século após a Batalha do
Lys, a memória desses combatentes permanece viva, transmitida especialmente às
gerações mais jovens, que são as garantidoras desse dever de lembrança.
Essas comemorações são um
lembrete poderoso de que a história europeia também foi construída sobre a
solidariedade entre nações, e que o sacrifício desses soldados continua a
lançar luz sobre o presente.
Fonte: Luso Jornal
(França)/Parceria