segunda-feira, 13 de julho de 2026

“Saúde oral ganha estatuto global: ONU abre caminho para uma nova era na prevenção das doenças crónicas”


Por: José Morais

A saúde oral entrou, pela primeira vez, no centro das decisões internacionais sobre doenças crónicas. A aprovação da Declaração Política da Quarta Reunião de Alto Nível da ONU sobre Doenças Crónicas Não Transmissíveis e saúde mental marcou um ponto de viragem: a Assembleia Geral reconheceu oficialmente que a saúde da boca é inseparável da saúde geral, do bemestar e da cobertura universal de cuidados.

 

Um problema global com números que não podem ser ignorados

 

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 3,5 mil milhões de pessoas vivem com doenças orais o grupo de condições de saúde mais prevalente no planeta. O relatório Global Oral Health Status Report 2022 mostra que estas patologias partilham fatores de risco com outras DCNT, como o consumo de tabaco, dietas ricas em açúcares, álcool e desigualdades sociais.

A integração da saúde oral nas estratégias de prevenção tornase, assim, uma exigência científica e não apenas política.

 

Periodontite: a doença silenciosa que afeta mais de mil milhões

 

Entre as doenças orais, a periodontite destacase pelo impacto sistémico. O Global Burden of Disease Study 2021 estima que mais de mil milhões de pessoas têm periodontite severa cerca de 12,5% da população mundial.

Se forem consideradas todas as formas da doença, a prevalência na população adulta varia entre 20% e 50%. A perda dentária, a diminuição da qualidade de vida e os custos crescentes para os sistemas de saúde tornam a periodontite uma verdadeira DCNT.

 

A ligação entre boca e corpo já não pode ser ignorada

 

A evidência científica é clara: a periodontite está associada a diabetes, doenças cardiovasculares, patologias respiratórias crónicas e até complicações na gravidez.

A separação histórica entre saúde oral e saúde geral é, hoje, considerada artificial. A Estratégia Global de Saúde Oral da OMS (WHA74.5) defende a integração plena da medicina dentária nos sistemas nacionais de saúde e nas políticas de cobertura universal.

 

Universidades: motores da mudança

 

As instituições de ensino superior têm um papel decisivo na produção de conhecimento, formação de profissionais e redução das desigualdades.

Em Portugal, a Egas Moniz School of Health and Science destacase internacionalmente: quatro dos seus médicos dentistas integram o top 2% dos investigadores mais citados do mundo, segundo a Universidade de Stanford. A investigação centrase precisamente na periodontite e nas suas ligações às doenças crónicas.

 

Da teoria à prática: o desafio da implementação

 

A nova Declaração da ONU não é apenas simbólica. Ao reconhecer o peso social e económico das doenças orais, cria condições para que a prevenção, a equidade e a abordagem centrada na pessoa deixem de ser conceitos abstratos e passem a orientar a organização dos sistemas de saúde.

O documento estabelece metas globais até 2030 como reduzir o consumo de tabaco e aumentar o controlo da hipertensão que, embora não específicas da saúde oral, incidem sobre fatores de risco comuns.

 

Interesses comerciais ainda travam medidas mais ambiciosas

 

Organizações da sociedade civil alertam que algumas propostas de prevenção e fiscalidade foram suavizadas durante as negociações, refletindo a influência de setores ligados a produtos prejudiciais à saúde.

 

O próximo passo: transformar reconhecimento em ação

 

A integração da saúde oral nas políticas nacionais de DCNT exige medidas concretas:

Indicadores de saúde oral nos sistemas de monitorização;

Articulação efetiva entre medicina dentária e medicina geral;

Referência bidirecional entre profissionais;

Inclusão da saúde oral nas estratégias de prevenção e gestão da doença crónica.

Só assim este avanço político se traduzirá em ganhos reais para as populações e em sistemas de saúde mais sustentáveis.

“Idanha-a-Nova submete parecer desfavorável ao Programa Setorial das Zonas de Aceleração de Energias Renováveis”


O Município de Idanha-a-Nova formalizou a submissão de um parecer desfavorável na plataforma oficial do Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis (PSZAER). A autarquia manifesta oposição a alterações na transição energética que provoquem impactos ambientais permanentes e irreversíveis.

A possibilidade desta tomada de posição já tinha sido comunicada publicamente pela Presidente da Câmara Municipal, Elza Gonçalves, no dia 22 de junho de 2026, no Salão da Junta de Freguesia do Ladoeiro, durante a reunião de Câmara descentralizada aí realizada. A autarquia cumpre agora a intenção manifestada perante os munícipes através desta submissão formal.

A preservação da paisagem assume uma importância crucial para o concelho de Idanha-a-Nova, pelo que o Município contesta a degradação visual e a descaracterização morfológica decorrentes da instalação de megacentrais. Estas infraestruturas preveem um impacto cumulativo de 5 351 hectares, o que corresponde a cerca de 4% da área total do concelho, colidindo com o bem-estar das populações locais.

O Município idanhense sublinha a defesa da transição para fontes de energia limpa com base em modelos descentralizados de produção, no aproveitamento de zonas artificializadas, no incentivo ao autoconsumo e em comunidades energéticas de pequena escala. Estas opções asseguram que o conflito com a natureza e com as pessoas seja menor. Por isso mesmo, o Município de Idanha-a-Nova “rejeita a implementação de projetos de escala massiva que descaracterizem o património natural e comprometam o progresso local”, pode ler-se no parecer.

A Presidente da Câmara Municipal assume o propósito de “defender com intransigência a qualidade de vida dos Idanhenses e das gerações futuras”, recusando a premissa de que as metas de descarbonização nacional legitimem o sacrifício dos recursos endógenos do poder local.

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova

domingo, 12 de julho de 2026

“Quando os olhos pedem socorro: os sinais silenciosos das doenças raras da visão”


Por: José Morais

As doenças raras já afetam cerca de 5% da população mundial, um universo de quase 300 milhões de pessoas. Entre elas, há um grupo particularmente desafiante: as distrofias hereditárias da retina, patologias genéticas que comprometem a visão de forma lenta, contínua e, muitas vezes, devastadora.

Estas doenças podem surgir apenas nos olhos ou manifestar-se em vários órgãos, mas têm um ponto em comum: são crónicas, progressivas e exigem vigilância apertada. Estima-se que uma em cada 4.000 pessoas viva com algum tipo de distrofia da retina números que desmontam a ideia de raridade absoluta.

 

Diagnóstico que tarda, impacto que cresce

 

O maior obstáculo para quem enfrenta estas patologias é, muitas vezes, descobrir que elas existem. A falta de informação leva muitos doentes a percorrerem um verdadeiro labirinto clínico: consultas sucessivas, diagnósticos inconclusivos e anos de incerteza.

A resposta costuma chegar apenas com um teste genético, mas quando o diagnóstico se atrasa, as consequências tornam-se reais.

Nas crianças, perde-se tempo precioso para estimular o desenvolvimento visual.

Nas famílias, instala-se a ansiedade e a instabilidade emocional.

Reconhecer os sinais cedo é, por isso, decisivo.

 

Sinais que não devem ser ignorados

 

A Unidade de Oftalmologia de Coimbra alerta para sintomas que exigem avaliação especializada.

Ausência de comportamento visual bebés que não fixam ou não seguem objetos.

Nistagmo movimentos involuntários dos olhos.

Cegueira noturna dificuldade acentuada em ambientes escuros.

Fotossensibilidade desconforto intenso perante luz.

Alterações na perceção das cores incapacidade de diferenciar tonalidades.

Campo visual reduzida visão que parece “encolher”.

Visão que não melhora com óculos sinal de que o problema não está na refração.

 

O papel decisivo da genética

 

Apesar de muitas distrofias não terem cura, saber exatamente qual é a doença muda tudo.

O diagnóstico genético permite:

Aconselhamento familiar adequado, reduzindo o risco de transmissão.

Acesso a ensaios clínicos e terapias inovadoras, como a terapia génica, que já oferece esperança a alguns doentes.

 

Reabilitação: recuperar autonomia e quebrar o estigma

 

Mesmo sem cura, há caminhos que devolvem independência:

Ajudas óticas para perto e longe.

Treino de mobilidade e orientação.

Aprendizagem de braille.

Uso de bengala desde cedo.

Estas ferramentas reduzem o impacto social da doença e ajudam a preservar a qualidade de vida.

 

O tempo é o maior inimigo

 

Nas doenças raras dos olhos, cada mês conta. Estar atento aos sinais e procurar avaliação especializada rapidamente pode evitar perdas irreversíveis e abrir portas a tratamentos que estão a evoluir a ritmo acelerado.