domingo, 8 de março de 2026

“Ingerir água às refeições poderá engordar? A ciência responde ao mito”


Por: José Morais

Durante anos, circulou a ideia de que beber água enquanto se come poderia contribuir para o aumento de peso ou até prejudicar a digestão. No entanto, especialistas em nutrição e fisiologia são claros: não existe evidência científica que sustente essa crença.

A água não contém calorias, gordura, açúcar ou qualquer outro nutriente energético. Por esse motivo, o seu consumo — seja antes, durante ou depois das refeições — não tem impacto direto no aumento de peso corporal.

Pelo contrário, a ingestão de água pode trazer algumas vantagens durante a refeição. Além de ajudar na mastigação e facilitar a deglutição dos alimentos, contribui para o funcionamento adequado do sistema digestivo. Em alguns casos, pode ainda favorecer a sensação de saciedade, o que pode ajudar a moderar a quantidade de alimentos ingeridos.

Outro mito frequente está relacionado com a ideia de que a água dilui os sucos gástricos e prejudica a digestão. Na prática, o organismo humano está preparado para lidar com diferentes volumes de líquidos e alimentos. Em indivíduos saudáveis, beber água às refeições não interfere de forma significativa na ação das enzimas digestivas nem na eficácia do processo digestivo.

O que pode causar desconforto abdominal durante as refeições é, sobretudo, o consumo excessivo de bebidas gaseificadas, alcoólicas ou ricas em açúcar. Estas podem provocar distensão abdominal, sensação de enfartamento ou refluxo em algumas pessoas.

Manter uma hidratação adequada ao longo do dia continua a ser uma recomendação fundamental para a saúde. Incluir água durante as refeições pode, inclusive, ser uma forma simples de garantir um consumo regular de líquidos.

De acordo com recomendações comuns na prática clínica em nutrição, não existe qualquer contraindicação para beber água durante as refeições, desde que isso não cause desconforto individual. Em suma, a água permanece uma das opções mais seguras, naturais e benéficas para acompanhar a alimentação diária.

 

Curiosidade:

 

Alguns estudos sugerem que beber água cerca de 20 a 30 minutos antes da refeição pode ajudar a controlar o apetite, sendo uma estratégia frequentemente utilizada em programas de gestão de peso.

sábado, 7 de março de 2026

“Doença celíaca: a intolerância permanente ao glúten que continua subdiagnosticada”


Por: José Morais

A doença celíaca é uma patologia crónica autoimune que afeta o sistema digestivo e obriga a uma restrição alimentar rigorosa: a eliminação total do glúten da dieta. Apesar de ser relativamente comum, continua frequentemente por diagnosticar, o que pode atrasar o tratamento e comprometer a qualidade de vida dos doentes.

Segundo especialistas, a única forma eficaz de controlar a doença é através de uma dieta estritamente isenta de glúten proteína presente em cereais como o trigo, o centeio e a cevada. Quando ingerida por pessoas celíacas, desencadeia uma reação inflamatória que danifica a mucosa do intestino delgado, dificultando a digestão e a absorção de nutrientes essenciais.

 

O que acontece no organismo

 

Na doença celíaca, o sistema imunitário reage de forma inadequada ao glúten, mais especificamente à gliadina, uma das suas frações proteicas. Esta resposta inflamatória provoca alterações nas vilosidades intestinais estruturas microscópicas responsáveis pela absorção de nutrientes levando à chamada má absorção intestinal.

Como consequência, podem surgir défices nutricionais importantes, mesmo em pessoas com uma alimentação aparentemente equilibrada.

 

Sintomas: nem sempre são apenas digestivos

 

Os sinais da doença variam consoante a idade e a gravidade do quadro clínico. Nas crianças, os sintomas digestivos são geralmente mais evidentes, enquanto nos adultos podem surgir manifestações menos específicas.

 

Sintomas digestivos mais comuns

 

Diarreia persistente, frequentemente com fezes volumosas e malcheirosas

Distensão abdominal e excesso de gases

Dor abdominal recorrente

Perda de peso ou dificuldade em ganhar peso

Atraso de crescimento nas crianças

Sintomas extraintestinais

 

A doença pode também manifestar-se fora do aparelho digestivo, incluindo:

 

Anemia por défice de ferro ou ácido fólico

Fadiga e fraqueza persistentes

Osteopenia ou osteoporose

Problemas neurológicos como formigueiros ou falta de força

Lesões cutâneas com comichão, conhecidas como dermatite herpetiforme

Alterações menstruais ou infertilidade

Irritabilidade ou alterações de humor

Em alguns casos, a doença pode ser praticamente assintomática, sendo descoberta apenas através de exames laboratoriais.

 

Uma doença frequentemente silenciosa

 

A doença celíaca pode apresentar diferentes formas clínicas. Quando os sintomas são discretos ou atípicos, fala-se em doença celíaca atípica. Já nos casos em que não existem sintomas, mas os exames confirmam a presença da doença, utiliza-se o termo doença celíaca assintomática.

Este caráter silencioso contribui para o subdiagnóstico. Estima-se que muitos doentes convivam durante anos com sintomas inespecíficos sem saber a sua causa.

 

Quem tem maior risco

 

A componente genética tem um papel importante. Familiares de primeiro grau de pessoas celíacas têm um risco significativamente maior de desenvolver a doença cerca de 10%.

Além disso, a doença é mais frequente em pessoas com determinadas condições médicas, como:

Diabetes tipo 1

Tiroidite autoimune

Síndrome de Down

Défice de imunoglobulina - A

Nestes grupos, o rastreio é frequentemente recomendado.

Quantas pessoas são afetadas

Estudos indicam que cerca de 1% da população portuguesa poderá ter doença celíaca. No entanto, especialistas acreditam que uma grande parte dos casos continua por diagnosticar, podendo existir entre 85 mil e 100 mil pessoas sem diagnóstico em Portugal.

Curiosamente, a doença não surge apenas na infância. Atualmente, muitos diagnósticos são feitos em adultos e cerca de um quarto dos novos casos ocorre após os 60 anos.

 

Como é feito o diagnóstico

 

O diagnóstico baseia-se em três elementos principais:

 

História clínica e avaliação dos sintomas

Análises ao sangue, que procuram anticorpos específicos associados à doença

Biópsia do intestino delgado, realizada através de endoscopia, para avaliar possíveis lesões nas vilosidades intestinais

É importante que os exames sejam feitos enquanto o doente ainda consome glúten, uma vez que retirar o glúten da dieta antes do diagnóstico pode alterar os resultados.

 

Tratamento: eliminar o glúten para toda a vida

 

Não existe cura para a doença celíaca. O tratamento consiste numa dieta estritamente sem glúten, que deve ser mantida ao longo de toda a vida.

Alimentos com menos de 20 partes por milhão de glúten podem ser rotulados como “sem glúten”, de acordo com normas internacionais.

 

Alimentos proibidos

 

pão, bolos e bolachas tradicionais, massas e pizzas, alimentos panados, cerveja e alguns produtos processados

 

Alimentos naturalmente sem glúten

 

Arroz, milho, batata, quinoa, fruta e legumes, carne, peixe e ovos

Mesmo assim, muitos alimentos processados podem conter glúten escondido, tornando essencial a leitura cuidadosa dos rótulos.

 

Qualidade de vida e desafios

 

A adoção de uma dieta sem glúten costuma trazer melhorias rápidas, muitas vezes em apenas uma ou duas semanas. Contudo, manter esse regime pode ser desafiante, não só pela restrição alimentar, mas também pelo custo mais elevado de muitos produtos específicos.

Em alguns casos cerca de 20% dos doentes podem persistir sintomas apesar da dieta, exigindo acompanhamento médico e, ocasionalmente, terapêutica medicamentosa.

 

Perspetivas futuras

 

A investigação científica procura novas estratégias terapêuticas, incluindo enzimas que ajudem a digerir o glúten, variedades de trigo modificadas e até vacinas capazes de induzir tolerância imunológica. Embora promissoras, estas abordagens ainda se encontram em fase de estudo.

 

Porque é importante diagnosticar cedo

 

Quando tratada corretamente, a doença celíaca tem um prognóstico muito favorável. No entanto, se permanecer sem tratamento, pode aumentar o risco de complicações, como problemas ósseos, infertilidade ou certos tipos de cancro do aparelho digestivo.

Por isso, perante sintomas persistentes ou pertencendo a grupos de risco, os especialistas recomendam procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce continua a ser a melhor forma de evitar complicações e garantir qualidade de vida aos doentes.

“Em destaque: Museu Oriente”


Recital

 

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Fonte: Fundação Oriente