Por: José Morais
A saúde oral entrou, pela
primeira vez, no centro das decisões internacionais sobre doenças crónicas. A
aprovação da Declaração Política da Quarta Reunião de Alto Nível da ONU sobre
Doenças Crónicas Não Transmissíveis e saúde mental marcou um ponto de viragem:
a Assembleia Geral reconheceu oficialmente que a saúde da boca é inseparável da
saúde geral, do bem‑estar
e da cobertura universal de cuidados.
Um
problema global com números que não podem ser ignorados
Segundo a Organização Mundial
da Saúde, cerca de 3,5 mil milhões de pessoas vivem com doenças orais o grupo
de condições de saúde mais prevalente no planeta. O relatório Global Oral
Health Status Report 2022 mostra que estas patologias partilham fatores de
risco com outras DCNT, como o consumo de tabaco, dietas ricas em açúcares,
álcool e desigualdades sociais.
A integração da saúde oral nas
estratégias de prevenção torna‑se,
assim, uma exigência científica e não apenas política.
Periodontite:
a doença silenciosa que afeta mais de mil milhões
Entre as doenças orais, a
periodontite destaca‑se
pelo impacto sistémico. O Global Burden of Disease Study 2021 estima que mais
de mil milhões de pessoas têm periodontite severa cerca de 12,5% da população
mundial.
Se forem consideradas todas as
formas da doença, a prevalência na população adulta varia entre 20% e 50%. A
perda dentária, a diminuição da qualidade de vida e os custos crescentes para
os sistemas de saúde tornam a periodontite uma verdadeira DCNT.
A ligação
entre boca e corpo já não pode ser ignorada
A evidência científica é
clara: a periodontite está associada a diabetes, doenças cardiovasculares,
patologias respiratórias crónicas e até complicações na gravidez.
A separação histórica entre
saúde oral e saúde geral é, hoje, considerada artificial. A Estratégia Global
de Saúde Oral da OMS (WHA74.5) defende a integração plena da medicina dentária
nos sistemas nacionais de saúde e nas políticas de cobertura universal.
Universidades:
motores da mudança
As instituições de ensino
superior têm um papel decisivo na produção de conhecimento, formação de
profissionais e redução das desigualdades.
Em Portugal, a Egas Moniz
School of Health and Science destaca‑se
internacionalmente: quatro dos seus médicos dentistas integram o top 2% dos
investigadores mais citados do mundo, segundo a Universidade de Stanford. A
investigação centra‑se
precisamente na periodontite e nas suas ligações às doenças crónicas.
Da teoria
à prática: o desafio da implementação
A nova Declaração da ONU não é
apenas simbólica. Ao reconhecer o peso social e económico das doenças orais,
cria condições para que a prevenção, a equidade e a abordagem centrada na
pessoa deixem de ser conceitos abstratos e passem a orientar a organização dos
sistemas de saúde.
O documento estabelece metas
globais até 2030 como reduzir o consumo de tabaco e aumentar o controlo da
hipertensão que, embora não específicas da saúde oral, incidem sobre fatores de
risco comuns.
Interesses
comerciais ainda travam medidas mais ambiciosas
Organizações da sociedade
civil alertam que algumas propostas de prevenção e fiscalidade foram suavizadas
durante as negociações, refletindo a influência de setores ligados a produtos
prejudiciais à saúde.
O próximo
passo: transformar reconhecimento em ação
A integração da saúde oral nas
políticas nacionais de DCNT exige medidas concretas:
Indicadores de saúde oral nos
sistemas de monitorização;
Articulação efetiva entre
medicina dentária e medicina geral;
Referência bidirecional entre
profissionais;
Inclusão da saúde oral nas
estratégias de prevenção e gestão da doença crónica.
Só assim este avanço político
se traduzirá em ganhos reais para as populações e em sistemas de saúde mais
sustentáveis.


