Por: José Morais
Um novo estudo científico
lança luz sobre um fenómeno há muito observado, mas ainda pouco compreendido: a
forte relação entre o envelhecimento, a menopausa e o aumento do risco de
cancro da mama. Segundo a investigação, publicada na revista Nature Aging,
cerca de 80% dos diagnósticos de cancro da mama ocorrem em mulheres com mais de
50 anos, idade em que as transformações hormonais e estruturais do tecido
mamário criam condições mais favoráveis ao desenvolvimento de tumores.
Um mapa
celular sem precedentes
A pesquisa, conduzida por
equipas do Canadá e do Reino Unido, produziu o mais detalhado “atlas” das
alterações que ocorrem nas cerca de três milhões de células que compõem o
tecido mamário. O trabalho analisou mamografias e biópsias de mais de 500
mulheres, entre os 15 e os 86 anos, permitindo observar como o tecido se
transforma ao longo da vida.
Os cientistas verificaram que,
com o avançar da idade, todas as populações celulares diminuem em número e se
dividem menos, o que altera profundamente a arquitetura da mama. Os lóbulos
estruturas responsáveis pela produção de leite encolhem ou desaparecem,
enquanto a gordura aumenta e os vasos sanguíneos se tornam menos abundantes.
Estas mudanças criam um microambiente mais permissivo à fixação e multiplicação
de células cancerígenas.
O impacto
decisivo da menopausa
A queda abrupta dos níveis de
estrogénio durante a menopausa surge como um dos fatores mais determinantes.
Segundo Pulkit Gupta, investigador da Universidade de Cambridge, as alterações
mais marcantes no tecido mamário ocorrem precisamente nesta fase, apesar de
algumas modificações já serem visíveis em idades mais jovens, sobretudo após
gravidez e parto.
Além das mudanças estruturais,
o estudo destaca uma transformação profunda no sistema imunitário local. Mamas
jovens apresentam maior presença de células B e T ativas, essenciais para
identificar e destruir células anómalas. Com o envelhecimento, estas células
diminuem e são substituídas por outras associadas a um ambiente mais
inflamatório e menos eficaz na vigilância contra mutações.
Uma
explicação para diferenças entre tumores jovens e tardios
Samuel Aparicio, da
Universidade da Colúmbia Britânica, sublinha que a grande surpresa foi
constatar que todas as células do tecido mamário e não apenas as produtoras de
leite são afetadas pelas alterações hormonais e pela idade. Esta descoberta
ajuda a explicar por que razão tumores em mulheres jovens tendem a ser
biologicamente distintos dos que surgem após a menopausa.
Um
problema global de saúde pública
O cancro da mama continua a
ser o tipo de cancro mais diagnosticado entre mulheres em todo o mundo,
representando um em cada quatro novos casos anuais. A compreensão detalhada de
como o tecido mamário envelhece, pode abrir caminho a novas estratégias de prevenção,
diagnóstico precoce e terapias mais personalizadas.





