Por: José Morais
O glaucoma continua a ser uma
das doenças oculares mais traiçoeiras do nosso tempo. Avança em silêncio, sem
dor e sem sinais evidentes, até que a perda de visão se torna irreversível. Em
março, a Semana Mundial do Glaucoma volta a colocar o tema na agenda pública,
lembrando que a prevenção continua a ser a arma mais eficaz contra este
“inimigo invisível”.
Uma
epidemia silenciosa que cresce no mundo
A Organização Mundial da Saúde
estima que cerca de 80 milhões de pessoas vivam com glaucoma, muitas sem
diagnóstico. A doença é hoje uma das principais causas de cegueira irreversível
a nível global, e o número de casos deverá aumentar nas próximas décadas devido
ao envelhecimento da população.
O grande desafio? A ausência
de sintomas nas fases iniciais. A maioria dos doentes só procura ajuda quando
já perdeu parte significativa da visão periférica perda essa que não pode ser
recuperada.
Por que
razão o glaucoma é tão perigoso
O glaucoma resulta, na maioria
dos casos, do aumento da pressão intraocular, que danifica progressivamente o
nervo ótico. O processo é lento, contínuo e, sobretudo, silencioso. Daí a
designação frequentemente usada pelos especialistas: “o ladrão silencioso da
visão”.
Quando os primeiros sinais
surgem como a sensação de “visão em túnel” a doença já se encontra numa fase
avançada. E, ao contrário de outras condições oftalmológicas, a visão perdida
não volta.
Diagnóstico
precoce: a diferença entre ver e deixar de ver
A boa notícia é que, quando
detetado a tempo, o glaucoma pode ser controlado. Exames simples e rápidos
permitem identificar alterações antes de surgirem sintomas:
Tonometria – mede a pressão
intraocular
Campimetria – avalia o campo
visual
Análise do nervo ótico –
observa danos estruturais
Com base nestes resultados, o
oftalmologista define o tratamento mais adequado, que pode incluir colírios,
laser ou cirurgia. O objetivo é sempre o mesmo: travar a progressão da doença.
Quem está
mais em risco
Alguns fatores aumentam
significativamente a probabilidade de desenvolver glaucoma:
Histórico familiar ter pais ou
irmãos com glaucoma é um dos principais fatores de risco
Idade superior a 40–50 anos
Pressão intraocular elevada
Miopia elevada, diabetes ou
uso prolongado de corticoides
Origem africana, associada a
maior predisposição genética
Para estes grupos, os
especialistas recomendam consultas regulares, mesmo na ausência de sintomas.
Um
problema de saúde pública que exige ação
A Semana Mundial do Glaucoma,
assinalada este ano entre 9 e 15 de março, pretende reforçar a importância da
prevenção e do acesso a cuidados oftalmológicos. Em muitos países, incluindo
Portugal, o diagnóstico tardio continua a ser uma realidade, sobretudo entre
populações mais envelhecidas ou com menor acesso a consultas de rotina.
Além do impacto na visão, o
glaucoma tem consequências profundas na autonomia, mobilidade e qualidade de
vida. A perda de visão periférica aumenta o risco de quedas, limita a condução
e afeta a capacidade de realizar tarefas simples do dia a dia.
A
mensagem essencial: não espere pelos sintomas
O glaucoma é uma doença para a
vida, mas não tem de ser uma sentença de cegueira. A chave está na vigilância
regular.
Um exame
de rotina pode salvar anos de visão
Se tem mais de 40 anos,
histórico familiar ou fatores de risco, marque uma consulta de Oftalmologia. No
glaucoma, agir cedo não é apenas importante é decisivo.