domingo, 4 de janeiro de 2026

“O inimigo não é só o açúcar. A verdade sobre a gordura nos bolos e sobremesas”


Por: Cláudia Viegas

Foto:  Designed by Freepik

Aos bolos queremo-los macios, altos, húmidos, mas para os termos perfeitos há que lhes acrescentar açúcar e gordura, duas fontes de calorias. Há substitutos, mas será que são as melhores opções? A nutricionista Cláudia Viegas dá-nos a resposta.

A um bolo, tal como o queremos, alto, fofo e húmido não lhe pode faltar açúcar, farinha, gordura, entre outros ingredientes, ainda que os três citados sejam aqueles que mais pesam do ponto de vista nutricional e no que respeita às calorias.

 

Açúcar

 

Podemos não pôr açúcar num bolo ou sobremesa? Podemos. Mas para ficar doce temos de substituir por uma, entre várias alternativas doces, a saber:

Adoçantes – São-no porque em pequenas quantidades têm um poder de adoçar maior. Usamos, assim, quantidades muito inferiores. No que aos bolos e sobremesas diz respeito, os adoçantes não são a melhor opção. Isto porque não criam volume. Ficamos com um bolo baixo e mais pequeno.

Fruta – A fruta também tem açúcar (frutose), cujo consumo elevado também não é benéfico para a saúde. Para além disso a fruta contém glicose (também um açúcar). A fruta triturada que adicionamos aos bolos e sobremesas fica com um índice glicémico mais elevado, mantendo-se o problema do açúcar.

Outros açúcares (entre eles o mel, açúcar de coco, xarope de agave) - As calorias são praticamente as mesmas quando comparadas com o açúcar tradicional e as diferenças no índice glicémico e a riqueza em minerais não justificam a substituição.

Acima de tudo nenhuma destas substituições justifica que se comam bolos e sobremesas sem freio, face às opções tradicionais.

 

Gordura

 

Muitos de nós esquecemo-nos que este é um dos ingredientes mais problemáticos dos bolos e sobremesas. Associamos rapidamente os doces a uma fonte de açúcar do que de gordura. Há que reter que, por cada grama de açúcar, resultam 4 Kcal e por um grama de gordura resultam 9 Kcal. Logo, quando contamos calorias é muito mais importante a quantidade de gordura adicionada do que a quantidade de açúcar.

Podemos substituir a gordura? Sim, mas o resultado não é igual. A gordura deixa os bolos húmidos, mais apetecíveis do ponto de vista da palatibilidade, mais macios, entre outros aspetos qualitativos.

Alternativas ao efeito da gordura nos bolos, biscoitos e sobremesas são o tofu, o queijo creme. Entre gorduras, podemos optar pelas mais saudáveis, trocando margarina por azeite, manteiga por óleo vegetal, mas temos de ter consciência de que as gorduras têm sempre as mesmas calorias.

Cada grama resulta em 9 Kcal, independentemente de usarmos azeite, óleo de coco, de sésamo ou de girassol. Exceções feitas à manteiga e margarinas light que podem ter metade das calorias, mas que também não são a melhor solução, pois muitas vezes não são indicadas paras as confeções, ou por possuírem gorduras trans são, ainda, mais prejudiciais.

A concluir: bolos e sobremesas são fonte de prazer, mas não para serem ingeridos com frequência. Bolos saudáveis não existem, podem ser mais equilibrados, ainda assim para comer com “conta, peso e medida”.

***Cláudia Viegas é Professora Adjunta na Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa. Os seus principais interesses de investigação estão relacionados com Alimentação em contexto de Hotelaria e Restauração na relação com a Saúde Pública, Promoção e Proteção da Saúde e Estilos de Vida.

Fonte: Sapo on-line Saúde

“Stresse, um dos maiores desafios de saúde do século XXI. “É uma epidemia global”


Por: Maria João Pinheiro, Psicóloga e Coordenadora de Psicologia do CNS – Campus Neurológico de Torres Vedras

Foto: Freepik/wayhomestudio

Em 2019, a Organização Mundial de Saúde classificou o stresse como um dos maiores desafios de saúde do século XXI, vendo-o como uma epidemia global. Para além de um limiar aceitável, o stresse corrói os nossos dias. É fonte de perturbação física e emocional. Há, pois, que apostar no autocuidado, na construção de uma rede de suporte social ou mesmo no apoio do profissional de saúde. Conversámos com Maria João Pinheiro, Psicóloga e Coordenadora de Psicologia do CNS – Campus Neurológico de Torres Vedras.

Não raro, escutamos a expressão “estou stressado/a”, quando nos encontramos perante uma situação de tensão, de ansiedade, de exaustão. Como forma de contextualizarmos a questão, como se define stress em termos médicos?

Sim, deixo-lhe a definição que nos é dada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Esta, define o stresse como um estado de preocupação ou tensão causado por uma situação desafiante, caracterizando-se como uma resposta adaptativa do ser humano que lhe permite lidar com os desafios e ameaças, ao longo da vida. Em 2019, a OMS classificou o stresse como um dos maiores desafios de saúde do século XXI, descrevendo-o como uma epidemia global.


Há situações em que o stresse moderado, pontual, pode ser positivo? Nomeadamente, poderá ajudar-nos a ultrapassar desafios?

Todos nós, em algum momento, já experienciamos a sensação de stresse no nosso dia a dia. No entanto, a forma como cada um de nós lida com o stresse é que constitui a grande diferença para o bem-estar de cada um. De forma global, o stresse, quando moderado, é uma resposta adaptativa que nos torna capazes de enfrentar os desafios e ameaças que vão aparecendo no quotidiano, podendo ser benéfica e útil.

 

O temperamento e a personalidade do indivíduo influenciam diferentes reações ao stresse?

 

 

Sim, o temperamento e a personalidade de cada indivíduo moldam e influenciam a forma como cada pessoa se comporta e reage em cada momento, de acordo com as suas características individuais. Deste modo, ambos vão influenciar a perceção e a experiência que cada um de nós vai ter perante uma situação de stresse.

Por exemplo, tipos de personalidade mais associadas a emoções negativas e ansiedade, tendem a estar correlacionadas com reações mais intensas ao stresse. Por outro lado, traços de personalidade mais relacionados com a resiliência e o otimismo podem definir-se como fatores de proteção face ao stresse.

 

Quais os sinais que nos deveriam levar a preocupar com as consequências do stresse nas nossas vidas?

 

O stresse pode manifestar-se de diversas formas, incluindo através de sintomas físicos como dores de cabeça, dor de estômago ou outra dor física, sintomas emocionais, como por exemplo, sentir-se mais ansioso ou irritado e/ou comportamentais, como dificuldades de concentração, alterações no apetite ou no sono e/ou aumento do consumo de substâncias como álcool ou tabaco.

Relativamente à saúde mental, o stresse pode ser um fator de risco ou manutenção para a ansiedade e depressão e contribuir igualmente para alterações de humor.

 

O stresse continuado tem implicações na nossa saúde física e mental. Quer, por favor, detalhar esta questão?

 

Para além dos sintomas descritos anteriormente, que causam desconforto e impacto no bem-estar global do indivíduo, sabe-se que a exposição prolongada a situações de stresse, ou o uso de estratégias desadaptativas para lidar com este, podem ter consequências na nossa saúde, podendo potenciar ou exacerbar condições de saúde física e psicológica já existentes. A nível físico, as patologias mais frequentes prendem-se a doenças cardiovasculares, problemas gastrointestinais, lesões musculares e alterações no sono.

Relativamente à saúde mental, o stresse pode ser um fator de risco ou manutenção para a ansiedade e depressão e contribuir igualmente para alterações de humor. O stresse pode também manifestar-se nos vários contextos da nossa vida, como o trabalho, evidenciando-se através de problemas de concentração e memória ou, em condições mais complexas, em casos de burnout.

 

O stress também afeta crianças e jovens. Como podemos preparar as novas gerações para gerirem melhor o stresse desde cedo?

 

De forma a capacitar as nossas crianças e jovens para melhor gerir o seu stresse devemos apostar na educação e literacia para a saúde mental, no conhecimento e aprendizagem de ferramentas transversais ao longo da vida, como estratégias de coping, de resolução de problemas e estratégias de regulação emocional.

A sobreproteção e a não exposição a situações de stresse, que podem parecer à partida uma forma de as proteger, pode ter consequências a longo prazo na sua autonomia e autoconfiança.

Associado à educação das crianças, os pais e educadores devem também ser capacitados com estratégias e ferramentas de gestão de stresse. Especialmente em crianças mais novas, estes são as principais fontes de interação e o contexto de aprendizagem e imitação de comportamentos.

A prática de exercício físico regular, a construção de uma rede de suporte social com relações saudáveis e o acesso a profissionais de saúde, devem também ser medidas a implementar para ajudar as crianças e jovens.

Apostar no autocuidado, com a adoção de hábitos saudáveis de sono, alimentação e atividade física regular, também se revelam um caminho positivo no combate ao stresse.

 

Que comportamentos individuais podemos assumir para diminuir/mitigar o stresse nos nossos dias?

 

Por exemplo, estabelecer limites importantes para o bem-estar, e definir rotinas diárias, pode ajudar-nos a gerir melhor o nosso tempo e aumentar a nossa sensação de controlo.

Apostar no autocuidado, com a adoção de hábitos saudáveis de sono, alimentação e atividade física regular, também se revelam um caminho positivo no combate ao stresse.

Acresce a construção de uma rede de suporte social. A partilha do que estamos a sentir, com pessoas em quem confiamos, pode ser uma forma de minimizar o stresse. Ter alguém que nos oiça, compreenda e nos dê sugestões e ou conselhos, pode fazer-nos sentir melhor.

 

Chega o momento em que há que procurar apoio profissional para mitigar o stresse. Neste contexto, qual é o papel do profissional de saúde?

 

Podemos contar com o apoio de diversos profissionais de saúde em função do contexto onde ocorre este pedido. Em larga escala, o médico de família ou profissionais de saúde de especialidades, muitas vezes são o ponto de partida para a referenciação e encaminhamento para os profissionais de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras.

Já em consulta de Psicologia, o psicólogo trabalha em conjunto com a pessoa, de modo a identificar, compreender e gerir as situações e/ou fatores que desencadeiam ou potenciam o stresse, promovendo estratégias adaptativas para que esta possa reduzir os níveis de stresse atual, mas também criando ferramentas de capacitação a longo prazo.

 

Atualmente, deparamo-nos com dispositivos e apps que se propõem ajudar a monitorizar ou gerir o stresse de forma eficaz. Como encara estes auxiliares de gestão de stresse?

 

Muitos dos dispositivos ou apps que se propõem a ajudar surgem como ferramentas que, pelo seu fácil acesso, nos podem ajudar a monitorizar os sintomas físicos associados ao stresse e reforçar a prática de comportamentos que incentivam o autocuidado e hábitos de vida mais saudáveis, através de lembretes e reforços positivos.

Embora numa primeira análise possam potenciar o autoconhecimento e a autoconsciência dos seus utilizadores, e consequentemente promover uma mudança de comportamento, é importante que esta mudança aconteça num ambiente favorável à mesma. O utilizador deve estar capacitado com estratégias e informação para que as possa implementar de forma individualizada, usando ferramentas e expectativas ajustadas ao seu contexto. Contrariamente, esta promoção de autoconsciência e automonitorização, quando associada a um utilizador sem ferramentas, pode ter um impacto negativo no seu bem-estar, podendo até exacerbar os níveis de stresse e ansiedade.

Podemos assumir o seu benefício a curto prazo, enquanto soluções rápidas e acessíveis, que abrangem uma grande parte de utilizadores, contudo devem ser integradas como parte de uma abordagem multifatorial, em conjunto com a atuação de um profissional de saúde.

 

O campo da investigação médica está permanentemente a entregar-nos novos caminhos no combate à doença. Neste campo em específico, quer destacar alguns avanços que lhe pareçam pertinentes?

 

A Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) tem tido um papel ativo na promoção e no desenvolvimento da investigação sobre o stresse em Portugal, com várias iniciativas que destacam a importância da saúde mental e da gestão do stresse. Medidas como campanhas de sensibilização e educação, promoção de boas práticas e programas de prevenção nos diversos contextos (trabalho, escolas, e na saúde pública), formação e desenvolvimento dos psicólogos, publicação de guias práticos de ferramentas para psicólogos e para o público em geral (baseados em investigação científica e adaptados à realidade cultural e social de Portugal) destacam-se como ações que contribuem para uma maior compreensão da temática e facilita o acesso do público geral a informação fidedigna e atualizada, atuando de forma preventiva e promotora da saúde mental.

Fonte: Sapo on-line Saúde