A mobilidade ativa caminhar, pedalar, usar trotinetes ou bicicletas deixou de ser apenas uma tendência urbana. Hoje, é um dos instrumentos mais eficazes para aliviar sistemas de saúde pressionados, reduzir emissões e devolver qualidade de vida às cidades. Apesar disso, continua a ser tratada como um extra, e não como infraestrutura essencial.
Uma
questão de saúde pública, não de estilo de vida
A Organização Mundial da Saúde
estima que a inatividade física provoque um milhão de mortes por ano na Europa,
contribuindo para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, vários tipos de
cancro e problemas de saúde mental. Se nada mudar, o impacto financeiro para os
sistemas públicos de saúde poderá ultrapassar 275 mil milhões de euros até ao
final da década.
Portugal surge num lugar
desconfortável neste cenário: segundo a OCDE e a OMS, é o país da União
Europeia com menores níveis de atividade física entre adultos, e a
Direção-Geral da Saúde aponta que 14% das mortes anuais estão associadas ao
sedentarismo.
Estes números não falam de
ginásios. Falam de cidades desenhadas para carros, onde mover-se ativamente é
difícil, inseguro ou simplesmente impraticável.
Infraestrutura
que muda comportamentos
A escolha entre carro e
mobilidade ativa não é apenas individual é estrutural. Quando existem ciclovias
protegidas, passeios amplos, ligações seguras ao transporte público e políticas
de estacionamento inteligentes, as pessoas mudam de hábitos. Quando não
existem, o carro vence por defeito.
E o preço dessa escolha recai
sobre todos: mais internamentos, mais medicação crónica, mais pressão sobre um
sistema de saúde já fragilizado.
Estudos publicados na BMJ já
em 2017 mostravam que deslocações pendulares de bicicleta reduzem o risco de
doenças cardiovasculares e cancro. Caminhar regularmente também diminui o risco
de doenças cardíacas. Quase uma década depois, a evidência acumulou-se, mas a
transformação urbana não acompanhou.
Pequenos
trajetos, grandes impactos
As trotinetes e bicicletas
elétricas funcionam como portas de entrada para a mobilidade ativa. Permitem
ligar a última milha entre casa e transportes públicos, encurtar percursos
urbanos e substituir viagens curtas de carro aquelas que mais poluem e menos
sentido fazem.
Segundo a European Cyclists’
Federation, trabalhadores que se deslocam ativamente faltam menos 1,3 dias por
ano, o que representa 5 mil milhões de euros de poupança na UE. A prevenção de
doenças cardiovasculares e diabetes soma mais 21 mil milhões de euros em
benefícios.
Se estes números não
justificam investimento em infraestrutura, o que justificará?
O que
falta às cidades
Tratar a mobilidade ativa como
infraestrutura implica:
Ciclovias protegidas não
apenas linhas pintadas no asfalto.
Polos de mobilidade integrada
onde veículos partilhados se articulam com autocarros, metro e comboios.
Políticas de estacionamento
inteligentes que tornem a opção ativa a mais fácil.
Indicadores de saúde urbana
para medir sucesso além do fluxo automóvel.
O setor privado pode ajudar,
mas a escala do desafio exige ação firme de municípios e governo. A
infraestrutura para uma população mais saudável já existe parcialmente. Falta
ambição para concluí-la.
