Kinuyo Tanaka [1909-1977] iniciou-se no cinema como actriz, incorporando um ideal de carácter feminino apelidado “yamato nadeshiko”, a flor do Japão. No entanto, nos seus filmes enquanto cineasta, todos eles povoados por mulheres fortíssimas e todos eles sobre a tragédia de ser mulher, o sacrifício dá lugar a uma desafiante tenacidade que nos incita a interpelar a condição feminina. A primeira mulher a filmar no período do pós-guerra japonês, Kinuyo Tanaka desbravou, sozinha e sem grande continuidade, um terreno quase inteiramente consignado aos homens.
Este ciclo apresenta, na
íntegra, as obras de uma realizadora pioneira no cinema japonês.
Programa
28 Julho 16.00 às 17.30 | Quem
és tu, Kinuyo Tanaka? | Palestra com o programador Miguel Patrício + exibição,
às 18h00, de Carta de Amor / Love Letter (恋文,
1953)
4 Agosto | A Lua Ascendeu /
The Moon Has Risen (月は上りぬ, 1955)
11 Agosto | Para Sempre Mulher
/ Forever a Woman (乳房よ永遠なれ, 1955)
18 Agosto | A Princesa Errante
/ The Wandering Princess (流転の王妃,
1960)
25 Agosto | Mulheres da Noite
/ Girls of the Night (女ばかりの夜,
1961)
1 Setembro | Senhora Ogin /
Love Under the Crucifix (お吟さま,
1962)
Co-organização The Stone and The Plot
KINUYO
TANAKA
Kinuyo Tanaka nasceu em 1909 e
morreu em 1977 com 67 anos. Entrou na indústria do cinema com apenas 14 anos,
em 1923, tendo apenas a instrução básica. A sua carreira enquanto actriz durou
mais de 50 anos, com mais de 250 filmes rodados. Nunca se casou nem teve filhos
- dizia estar casada com o cinema. Apenas recentemente pôde o mundo conhecê-la
como a extraordinária cineasta que era, sendo a segunda mulher a filmar no
Japão e a primeira no período do pós-guerra japonês. Somente com Naomi Kawase,
já nos anos 2000, uma mulher conseguiu superar o recorde de seis
longas-metragens filmadas num contexto comercial no Japão. Kinuyo Tanaka
desbravou, sozinha e sem grande continuidade, um terreno quase inteiramente
consignado aos homens.
Como actriz, Tanaka
frequentemente incorporou uma subtileza, abnegação e pureza de carácter
feminino que os japoneses cunharam de “yamato nadeshiko”, a flor do Japão. No
entanto, nos seus filmes enquanto cineasta, todos eles povoados por mulheres
fortíssimas (desde as protagonistas até às presenças mais secundárias) e todos
eles sobre a tragédia de se ser mulher, o sacrifício frequentemente dá lugar a
uma desafiante tenacidade que nos incita a interpelar a própria condição
feminina. A Fumiko de Para Sempre Mulher, o exemplo mais gritante disto, mas
longe de ser o único, chega mesmo a pedir que a amiga mire o seu corpo doente.
E também nós, através desse pedido, nos espantamos com esse banho mortal, nos
antípodas de alguém que sofre e submissamente se cala. Pela sua intensidade
lancinante, esta via-crúcis de sofrimento em sofrimento não deixará ninguém
indiferente e é porventura a maior revelação desta integral.
Com efeito, logo na sua
primeira longa-metragem, Carta de Amor, Tanaka explora, através do olhar de um
homem inseguro e debilitado, a condição das mulheres que, após a derrota do
Império do Sol Nascente na Segunda Guerra Mundial e da ocupação americana que
se seguiu em 1945, usaram o seu corpo como meio de sobrevivência. Michiko,
presença fantasmagórica que surge e se dissolve nas clareiras da memória e do
desejo masculinos titubeantes, é metonimicamente o campo de batalha de uma
guerra mental e cultural que ainda se travava num Japão assombrado pela derrota
e humilhação. Não menos diferentes são as mulheres caídas do Centro de
Reabilitação Shiragiku (Crisântemo Branco, nem de propósito) em Mulheres da
Noite, filme coral e colectivo, que narra o percurso de reintegração social de
ex-prostitutas que viram o seu ofício ser subitamente ilegalizado em 1956. O
jogo viciado e o périplo impossível de Kuniko e das suas companheiras levanta
várias questões acerca da absolvição moral e da conservação da “pureza” - e entre
ser dos homens ou ser de um homem, o desenlace diegético, de panpan a ama-san,
que exclui ambas as possibilidades, não deixa de ser surpreendente.
Se A Lua Ascendeu pode ser
aparentemente o menos “autoral” dos filmes de Tanaka (isto porque adapta um
argumento de Yasujiro Ozu, cedido pelo próprio, e se apoia formalmente na
estilística do mestre, sendo-lhe quase um tributo), não podemos deixar de assinalar
a personagem de Setsuko, uma presença disruptiva no mundo estático e
contemplativo “ozuesco”, que destabiliza todos os personagens e o próprio
espectador sempre que surge. Hipérboles
à parte, encaramo-la como uma inserção da própria cineasta, que só poderia
atribuir a uma mulher este papel. Talvez as pequenas aparições de Kinuyo Tanaka
nos seus primeiros três filmes tenham um efeito semelhante a este.
Nos dois filmes rodados a
cores, A Princesa Errante e Senhora Ogin, outras duas mulheres são perfiladas
em períodos conturbados da História do Japão: respectivamente as primeiras
décadas do período Showa com o seu militarismo crescente, e o período de unificação
nacional conhecido como Azuchi-Momoyama. Ryuko em A Princesa Errante conserva
um amor além-fronteiras, mesmo sendo comparada, como sucede num dos planos mais
expressivos do filme, a um pássaro enjaulado, dilacerada na diplomacia duvidosa
entre Japão e China. Em Senhora Ogin, o amor proibido entre um samurai cristão
e a filha de um mestre de chá atinge o zénite da transgressão e da
irreverência. Podemos quase imaginar Ogin como o antepassado espiritual de
Fumiko de Para Sempre Mulher, como se a poetisa fosse a reencarnação da donzela
sacrificada pelas suas próprias mãos. De ambas, poderíamos lembrar a frase do
mestre de chá Kakuzo Okakura, evocado por motivos óbvios: “Quem apenas viveu
com o belo, pode morrer em beleza”.
É verdade que os cineastas
japoneses, sobretudo os clássicos, sempre retrataram obsessivamente o feminino.
Kenji Mizoguchi, entre muitos outros, chegou mesmo a ganhar o epíteto
“feminisuto”, ou cineasta feminista, por expor um mundo injusto onde as mulheres
sofrem sempre mais do que os homens. Não podemos, no entanto, esquecer que esse
termo no Japão da altura significava uma certa deferência em relação ao mundo
feminino e várias vezes conotava um certo paternalismo. Esperamos que esta
integral demonstre que Tanaka trouxe uma nova abordagem, uma nova
visceralidade. Vista na sua cronologia, esta obra poderá ser uma revelação para
quem ainda não se aventurou nela.
Fonte: Fundação Oriente