segunda-feira, 7 de julho de 2025

“Estratégia em defesa do Jornalismo Regional”


Por: José Vieira

Conforme prometido no meu artigo anterior, hoje falarei da estratégia para se combater este ataque sistemático que é feito à imprensa regional, desde que somos uma democracia plena de direitos, ou melhor dizendo, desde o 25 de abril de 1974.

Importa referir para enquadrar algum histórico de protestos semelhantes, que raras vezes o jornalista ou o jornalismo saiu à rua e protestou. Isso aconteceu 2 ou 3 vezes, com redações de jornais nacionais com planos de encerramento/remodelação ou com protestos ao nível salarial (ordenados em atraso). E estas ações de protesto nunca miraram a tutela, mas sim as chefias. Importa agora também referir que a imprensa regional nunca, mas nunca criou ou participou em alguma espécie de protesto coletivo, que visasse demonstrar a sua insatisfação ao governo. 

A função da imprensa regional é acompanhar o dia a dia do seu povo, divulgando as suas atividades, as suas alegrias e tristezas, sendo os primeiros a chegar às tragédias que se vivem, sendo roubados pelos órgãos nacionais nos textos, vídeos e imagens que criam. E são também os principais veículos de informação da nossa diáspora. Na altura de se decidirem apoios, são sempre relegados para último e poucas migalhas conseguem alcançar do repasto dos ricos jornais nacionais.

E chegou a altura de nas próximas semanas/meses, começarmos a desenhar uma espécie de bloco central estruturado, que vise informar o governo que a imprensa regional anda aqui há muitos anos (muito antes do 25 de abril), sempre fez um trabalho extraordinário, noticiando localmente o que as populações precisam de saber, substituindo-se aos jornais nacionais que noticiam menos de 1% das realidades regionais. E quando o fazem são quase sempre notícias de faca e alguidar, que é efetivamente o que vende e dá “gostos” no Facebook.

Ressalvo que não pretendo com este artigo incitar a nenhuma ação de protesto que não se enquadre no estrito respeito pelo direito à integridade física e intelectual, de pessoas e bens, sempre na defesa de uma ação elevadora e acima de qualquer crítica. Contudo, precisamos de pensar em soluções mais musculadas, em termos intelectuais, para passar a ideia de que iremos lutar, doe a quem doer.

Enquadrada que está a necessidade de lutarmos (pela primeira vez), urge perceber como o podemos fazer. Já percebemos que não vamos a lado nenhum com esta passividade a que nos sujeitamos. Então, e partindo do princípio em que nada perderemos, ou não perderemos mais, pois a continuação deste marasmo vais-nos levar ao fecho das nossas publicações, só temos a alternativa de lutar, e tudo a ganhar. Já perdemos o que tínhamos a perder.

E numa primeira ideia, pois não sou profissional de protesto (que os há), é justo dizer-se que temos connosco, em cada jornal em que trabalhamos, a espada certa para arrepiar caminho. A nossa caneta! Há que abrir rúbricas por esta imprensa regional, de norte a sul do país, e começarmos todos a escrever colunas de opinião que visem denunciar este plano que está em curso há muito tempo, de apertar o pescoço aos órgãos de comunicação regionais. Há que divulgar, massivamente, sem medos de retaliação. Quem nada aufere do poder, nada pode perder. Muitos de nós aguardam o regresso de São Sebastião, mas ele não volta mais. Morreu, está enterrado e cabe-nos a nós armarmos os nossos cavaleiros para as batalhas que se avizinham.

Mas escrever artigos a denunciar esta situação basta? Não, não basta. Há que encontrar uma base de inteligência, que pode ter como quartel-general uma das associações de imprensa existentes, ou todas, bastando haver vontade de cooperação entre as existentes, e a partir daí desenhar outras ferramentas. Não podemos esquecer que a imprensa regional é líder de audiências em Portugal, se estivermos unidos. Bastam 23% das publicações regionais para atingirmos 10 milhões de pessoas mais a diáspora em que somos mais 5 milhões lá fora e onde existem dezenas de órgãos de comunicação, tutelados por Portugal, equiparados aos nossos jornais regionais, com as mesmas dificuldades que nós sentimos. Os outros 77% são redundantes. Ou seja, em suma, temos uma força editorial e uma capacidade de penetração nos diversos públicos, nacionais e na diáspora, extraordinária, em que os nacionais só sonham.

Então o que tem corrido mal? A nossa desunião! Nunca fomos unidos, as nossas associações de imprensa nunca protagonizaram grandes mudanças ou mesmo tiveram posições de grande força, e fomos andando, esperando por quem nunca virá, fechando aqui e ali, definhando e esmorecendo. Ora, isto não tem de ser assim. Pode ser diferente, se tivermos a coragem de dar força ao setor e participarmos ativamente na construção de uma força que efetivamente obrigue o governo a olhar para este setor com outros olhos. Atualmente, a maioria dos nossos representantes associativos limita-se a ser informado pela tutela das regras/apoios e pouco mais fazem para melhorar as propostas. Mandam uns e-mails, sugerem a correção de algumas alíneas, fazem umas reuniões e aceitam passivamente o que lhes é oferecido. Basta. Há que inverter esta estratégia, há que informar a tutela que acabou o tempo de andarem a brincar connosco. A brincadeira vai-lhes custar muitas dores de cabeça, se continuam nesta direção. Podemos e devemos informar os 15 milhões de portugueses a que teoricamente abrangemos, de que algo de podre se passa nesta república. Com esta constância noticiosa, informando e formando os nossos leitores de que a primeira força de defesa da democracia está ameaçada pelos interesses de alguns escroques e corruptos, podemos começar a inverter esta tendência de nos quererem subjugar, apertando cada vez mais o cerco e criando condições de trabalho inatingíveis para a maioria dos nossos órgãos de comunicação regionais.

O que aí vem nos próximos meses não é bom, vai delapidar o nosso setor, e vamos, dentro de meia dúzia de meses, ser cada vez menos. Alguns de nós irão sobreviver porque têm uma dimensão regional robusta, e vão tomar conta deste setor. Os outros, que têm as suas quotas de leitores (sendo muitos destes títulos centenários) vão fechar porque não têm as mínimas condições de permanecer no mercado, com regras tão apertadas.

Por isso, insto a que todos nós, colegas de profissão e leitores, se juntem e defendam o jornalismo regional. Há que fazer um novo 25 de abril. Há que escrever até à última gota de tinta das nossas canetas e depois, marchar, marchar, marchar…

“Livro apresentado em Idanha-a-Nova”


Ideias Simples para uma Escola Feliz: um legado pedagógico

 

Por: Tiago Carvalho

O livro “Ideias Simples para uma Escola Feliz”, coordenado por João Ruivo, foi publicamente apresentado, no passado dia 5 de julho, em Idanha-a-Nova. A sessão, teve lugar no Centro Cultural Raiano e reuniu um público atento e diverso, composto por docentes, autarcas, investigadores, antigos alunos e membros da comunidade local.

A apresentação da obra esteve a cargo do Professor Doutor Ricardo Vieira, Professor Decano do Politécnico de Leiria, que sublinhou a relevância do livro como testemunho de uma geração de professores que atravessou décadas marcantes da história da educação, em Portugal e na Europa. “Esta é uma obra com alma e memória, feita de experiências vividas e partilhadas com a nobre intenção de inspirar quem hoje e amanhã continuará a lutar por uma escola pública, inclusiva e humana”, afirmou.

Durante a sessão, o Presidente da Câmara Municipal de Idanha-a-Nova, Armindo Jacinto, reforçou o papel central da educação na estratégia de desenvolvimento do concelho. Sublinhou que a escola deve ser o alicerce de uma sociedade mais consciente, saudável e participativa, e que esse caminho exige investimento, compromisso e visão a longo prazo.

Como exemplos concretos desse compromisso, por parte da autarquia, destacou a rede de creches municipais, que oferece um serviço totalmente gratuito às famílias e funciona como um incentivo à natalidade e à conciliação entre a vida pessoal e profissional, e ainda a implementação das bio-cantinas escolares, que promovem hábitos alimentares saudáveis desde a infância. “Todos somos atores para que os nossos jovens e crianças tenham na educação uma oportunidade para serem melhores”, afirmou o autarca, sublinhando que o sucesso educativo é um esforço coletivo, que envolve famílias, professores, autarquia e toda a comunidade.

Em Idanha-a-Nova, a educação é assumida como uma prioridade transversal, pensada para todas as idades, “dos 0 aos 114 anos”. Na sua intervenção, referiu ainda o excelente trabalho que está a ser desenvolvido pelo Agrupamento de Escolas José Silvestre Ribeiro, pela EPRIN, pela ESGIN e pelo ensino privado, entidades com que a autarquia tem trabalhado em rede e em proximidade.

“Ideias Simples para uma Escola Feliz” é descrito como uma obra singular, com forte probabilidade de integrar o espólio histórico da educação do último meio século. Reúne contributos de professores em situação de aposentação ou fim de carreira, nacionais e internacionais, com percursos marcantes na docência, investigação ou cargos públicos.

A apresentação desta obra, acolhida com particular apreço pelo Presidente da Câmara por estar em plena sintonia com a estratégia educativa do Município, contou também com a presença de vários colaboradores do livro, bem como do editor João Carrega.

No encerramento da sessão, João Ruivo agradeceu aos colaboradores da obra e a todos os presentes, reforçando que este livro nasce do desejo de deixar um legado às novas gerações: “Aqui não há artigos académicos herméticos, há histórias reais de quem viveu a escola por dentro, com paixão e com sentido. Esta é uma homenagem à educação como causa de vida”.

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova

“A Arte das Musas”


Em parceria com o Município de Idanha-a-Nova, UNESCO City of Music, e o apoio da Direcção-Geral das Artes, apresenta

 

Projecto Elvas, Vol. 1

Sete Lágrimas

Primeiro volume da hexalogia dedicada ao Cancioneiro de Elvas (séc. XVI)

Por: Tiago Carvalho

CONCERTOS LANÇAMENTO

18 Julho 2025, Sexta-feira, 21h30

Idanha-a-Nova, Centro Cultural Raiano

19 Julho 2025, Sábado, 17h30

Évora, Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo

25 Julho 2025, Sexta-feira, 21h30

Tomar, Convento de Cristo

26 Julho 2025, Sábado, 18h30

Porto, Casa do Infante

13 Setembro 2025, Sábado, [hora a confirmar]

Alcobaça, Mosteiro de Alcobaça

14 Setembro 2025, Domingo, 17h30

Aveiro, Igreja do Convento de S. João Evangelista (Carmelitas)

Sete Lágrimas

Filipe Faria e Sérgio Peixoto, direcção artística

Filipe Faria, voz, percussão

Sérgio Peixoto, voz

Pedro Castro, flautas, baixão, charamela

Tiago Matias, viola de mão (vihuela)

Sinopse curta

A Arte das Musas apresenta Projecto Elvas, Vol. 1, o 17.º título da discografia do consort Sete Lágrimas e o primeiro volume de uma hexalogia dedicada ao Cancioneiro de Elvas (s. XVI), um dos quatro cancioneiros musicais ibéricos renascentistas que chegaram até nós. O projecto propõe mergulhar neste pequeno códice e fazer ouvir a integral das suas 65 canções profanas: vilancetes, cantigas, tercetos e outras formas poético-musicais (volumes 1 a 3), e compor nova música, por Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas que lá se encontram sem música (volumes 4 a 6).


Sinopse média

A Arte das Musas apresenta o lançamento e a digressão de estreia do 17º título da discografia do consort de Música Antiga e contemporânea Sete Lágrimas — intitulado Projecto Elvas, Vol. 1.

Depois de vinte e seis anos de visitas constantes ao Cancioneiro de Elvas — um dos quatro cancioneiros ibéricos do século XVI que chegaram até nós a par do Cancioneiro de Paris (Ms. Masson 56, École de Beaux-Arts, Paris), do Cancioneiro de Lisboa (Ms. C.I.C 60, Biblioteca Nacional de Lisboa) e do Cancioneiro de Belém (Ms. 3391, Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, Lisboa) — Sete Lágrimas propõe mergulhar neste pequeno códice e fazer ouvir, numa hexalogia, toda a sua música... a que está escrita (volumes 1—3) e aquela que podia estar (volumes 4—6).

O Projecto Elvas, Vol. 1 é o primeiro volume de uma série de 6 títulos, um projecto inédito, de grande fôlego, que propõe gravar a integral das 65 canções profanas conservadas no códice: vilancetes (ou vilancicos), cantigas, tercetos e outras formas poético-musicais (volumes 1 a 3) e propor nova música, de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas que aí se encontram sem música (volumes 4 a 6).

O novo projecto da Arte das Musas, em parceria com o Município de Idanha-a-Nova e com o apoio da Direcção-Geral das Artes, foi criado numa série de residências artísticas em Idanha-a-Nova e gravado na Antiga Sé de Idanha-a-Velha.

A digressão de lançamento parte de Idanha-a-Nova (18/7, Centro Cultural Raiano) e passa por Évora (19/7, Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo), Tomar (25/7, Convento de Cristo), Porto (26/7, Casa do Infante), Alcobaça (13/9, Mosteiro de Alcobaça) e Aveiro (14/9, Igreja do Convento de S. João Evangelista - Carmelitas, Aveiro).

Projecto Elvas

[Primeira Parte]

Volumes 1—3

As 65 canções profanas: vilancetes, cantigas, tercetos e outros I—III

Segvnda Parte

Volumes 4—6

Nova música, de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas

Hexalogia dedicada ao Cancioneiro de Elvas, manuscrito português do terceiro quartel do século XVI (BME Ms. 11793/P-Em 11793). Dividido em duas partes, o projecto canta as 65 canções profanas conservadas no códice: vilancetes (ou vilancicos), cantigas, tercetos e outras formas poético-musicais (volumes 1 a 3) e propõe nova música, de Filipe Faria e Sérgio Peixoto, para os 36 romances, glosas, vilancetes e cantigas que aí se encontram sem música (volumes 4 a 6).

Mais informação em setelagrimas.com artedasmusas.com/elvas

 

Ficha técnica

 

Um projecto Arte das Musas

Com o apoio República Portuguesa - Cultura \Direção-Geral das Artes

Em parceria com Município de Idanha-a-Nova \UNESCO City of Music

Rede Europeia REMA \Réseau Européen de Musique Ancienne

Media partner Antena 2

Música Sete Lágrimas

Edição Arte das Musas

Parcerias

O Homem – Colectivo

Fora do Lugar - Festival Internacional de Músicas Antigas

Parcerias de acolhimento

Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova)

Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo (Évora)

Convento de Cristo (Tomar)

Casa do Infante (Porto),

Mosteiro de Alcobaça (Alcobaça)

Museu de Aveiro/Igreja do Convento de S. João Evangelista - Carmelitas (Aveiro)

 

NOTAS AO PROGRAMA

Filipe Faria

O Cancioneiro de Elvas (Biblioteca Municipal de Elvas, Ms. 11793/P-Em 11793), manuscrito português do terceiro quartel do século XVI, descoberto cerca de 1928 na cidade de Elvas e publicado, pela primeira vez, em Coimbra, em 1940 (1), encontra-se dividido em duas partes: a primeira compreende um conjunto de sessenta e cinco canções polifónicas profanas — vilancetes (ou vilancicos), cantigas, tercetos e outros géneros poético-musicais ; a segunda compõe-se de trinta e seis romances, glosas, vilancetes e cantigas.

“Durante alguns dias vi e tornei a ver o pequeno códice, com música e letra, ao qual faltavam fôlhas no princípio e no fim, e por mais que indagasse, na minha modesta livraria musical, nada encontrei que levasse os meus olhos a deslumbrarem-se perante a descoberta extraordinária que então tinha feito.” (1)

De tamanho reduzido — 145 × 96 mm —, o códice original perdeu os primeiros trinta e nove fólios (e a sua música), bem como outros quatro (fóls. 50, 105, 107 e 109). A música apresenta-se “disposta tal como era usual na época: as diferentes vozes escritas por separado, no verso de uma folha e recto da seguinte, de modo que perante o livro aberto todos os executantes pudessem ler simultaneamente as suas partes”. (2)

“Todo o conteúdo do Cancioneiro elvense foi escrito por um só copista. Pelo cuidado posto na transcrição da música e do texto e pela perfeição admirável da caligrafia, mostra ter sido executado por mão de profissional.” (3)

A primeira parte do Cancioneiro é composta por “três camadas de reportório polifónico, distribuídas por quatro colecções: duas colecções de peças do reportório ibérico de c. 1500, respondendo maioritariamente à classificação de vilancetes; uma colecção de peças portuguesas, classificáveis em geral como cantigas, provavelmente da 1.ª metade do século XVI; e um grupo de composições de gosto italianizante de origem igualmente portuguesa, do terceiro quartel do século”. (4)

Entre as composições que integram a primeira parte do códice, é possível identificar vinte e quatro concordâncias musicais e trinta e três textuais, distribuídas por alguns dos mais importantes manuscritos da época: o Cancioneiro de Paris (Ms. Masson 56, École de Beaux-Arts, Paris); o Cancioneiro de Lisboa (Ms. C.I.C 60, Biblioteca Nacional de Lisboa); o Cancioneiro de Belém (Ms. 3391, Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, Lisboa) — que integram, a par do Cancioneiro de Elvas, a colecção de quatro cancioneiros portugueses do século XVI que chegaram até nós —; o Cancionero de Palacio (Ms. 1335, Real Biblioteca, Madrid); o Ms. Magl. XIX 107 bis (Biblioteca Nazionale Centrale, Firenze); o Cancionero de Segovia (Ms. mus. Archivo Capitular, Catedral de Segovia); ou o Cancionero de Barcelona (Ms. 454, Biblioteca Central de Barcelona). (5)

De notar que, nos cento e um textos e composições do Cancioneiro de Elvas — oitenta e dois em castelhano e dezanove em português —, não se encontram indicados os nomes dos respectivos autores ou compositores. Ainda assim, foi possível atribuir, na primeira parte do manuscrito, a autoria de sete composições a Juan del Encina (1469–c. 1529/30), Pedro de Escobar (c. 1465–

 –depois de 1535) e Pedro de Pastrana (c. 1480–depois de 1559), e de doze textos a Garcí Sánchez de Badajoz (c. 1460–1526), Salazar el Hermitaño, Comendador Escrivá, Dom Afonso de Menezes (fl. primeira metade do século XVI), Juan del Encina e Dom Manuel de Portugal (c. 1520–1606). Na segunda parte, surgem novas atribuições textuais a muitos destes autores, com a inclusão de Pêro de Andrade Caminha (c. 1520–1589). (6)

“Durante o século XVI, e mesmo antes, a língua portuguesa era bem conhecida em Espanha, e, inversamente, muitos poetas portugueses escreviam frequentemente em castelhano. Além disso, o castelhano era uma língua em voga na corte portuguesa”. (7)

A frequência de textos não atribuídos sugere uma cultura de circulação paralela de composições e poemas, tanto de autores reconhecidos como de outros, anónimos — uma prática assente na partilha e na escuta, onde o valor da obra reside, muitas vezes, na sua ressonância emocional e na eficácia poética ou performativa. Este diálogo de línguas e autores ibéricos reflecte a permeabilidade cultural da Península no século XVI e inscreve-se num dos momentos de maior densidade estética e simbólica da sua história musical e literária. Nesse contexto, consolida-se um repertório onde a sofisticação formal se alia a uma expressividade intensa, revelando tanto a continuidade de práticas enraizadas como a assimilação de ideais humanistas.

Do ponto de vista formal, o vilancete (ou vilancico) — estrutura recorrente no manuscrito — organiza-se em torno de um mote (ou estribilho), seguido de coplas e voltas, numa disposição que favorece a variação melódica e reforça o efeito expressivo do conjunto poético. Os textos tratam, sobretudo, de temas amorosos e de lamento, mas incluem também alusões ao quotidiano, e, pontualmente, à sátira, num registo onde o lírico e o mundano convivem. A linguagem directa ou as repetições e o uso de expressões populares acentuam a proximidade com o universo performativo.

Mais do que repositório de poesia e música, o Cancioneiro de Elvas oferece um retrato das práticas criativas do seu tempo — práticas essas em que o anónimo dialoga com o letrado, o dramático com o quotidiano, e o culto com o popular. Testemunha de um mundo em transição, o manuscrito permite entrever a complexidade e a vitalidade da poética ibérica do Renascimento.

Depois de vinte e seis anos de visitas constantes ao Cancioneiro, Sete Lágrimas propõe mergulhar neste pequeno códice e fazer ouvir, numa hexalogia, toda a sua música... a que está escrita (volumes 1—3) e aquela que podia estar (volumes 4—6). É esta a nossa nova viagem.

(1) Manuel Joaquim, O Cancioneiro Musical e Poético da Biblioteca Públia Hortênsia, Coimbra, 1940, p. 7

(2) Manuel Pedro Ferreira, Cancioneiro da Biblioteca Publia Hortensia, IPPC, Lisboa, 1989, p. VI

(3) Manuel Morais, Cancioneiro Musical d’Elvas, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1977, p. VI

(4) Manuel Pedro Ferreira, Cancioneiro da Biblioteca Publia Hortensia, IPPC, Lisboa, 1989, p. VIII

(5) Concordâncias identificadas e sistematizadas em Manuel Joaquim (1940), Manuel Morais (1977), Gil Miranda (1987) e Manuel Pedro Ferreira (1989)

(6) Atribuições identificadas e sistematizadas em Joaquim (1940), Morais (1977), Miranda (1987) e Ferreira (1989)

(7) Gil Miranda, The Elvas Songbook, American Institute of Musicology, Neuhausen-Stuttgart, 1987, p. XIV

BIOGRAFIA

Sete Lágrimas

 

...though the title doth promise tears, unfit guests in these joyful times, yet no doubt pleasant are the teares which musick weeps, neither are tears shed always in sorrow, but sometimes in joy and gladness. Vouchsafe then your gracious protection to these showers of harmony (…) they be metamorphosed into true tears.

...embora o nome prometa lágrimas, convidadas pouco aprazíveis nestes tempos de alegria, são sem dúvida agradáveis as lágrimas que a música chora, nem sempre vertidas em tristeza mas também em alegria. Permita a vossa graciosa protecção a estes aguaceiros de harmonia que sejam metamorfoseados em verdadeiras lágrimas. [trad. livre]

— John Dowland (?1563-1626) in Lachrimæ or seaven teares..., London, 1604

Fundado em Lisboa, em 1999, por Filipe Faria e Sérgio Peixoto, Sete Lágrimas ECMC – Consort de Música Antiga e Contemporêna – assume o nome da inovadora colecção de danças do compositor renascentista John Dowland (1563-1626) – Lachrimæ, or Seaven Teares – publicadas por John Windet em 1604 quando o compositor era alaudista de Cristiano IV da Dinamarca (1577-1648).

Dedicado aos diálogos da Música Antiga com a contemporaneidade ­­– bem como da música erudita com as tradições seculares –, Sete Lágrimas junta músicos de diferentes horizontes musicais em torno de projectos conceptuais animados tanto por originais investigações musicológicas como por processos de inovação e criatividade em torno dos sons, instrumentário e memórias da Música Antiga.

Nestes projectos são identificáveis os diálogos entre a música erudita e a popular, entre a Música Antiga e a contemporânea e entre a secular diáspora portuguesa dos Descobrimentos e o eixo latino mediterrânico convertidos em som através da fiel interpretação dos cânones performativos da Música Antiga como de uma aproximação a elementos definidores da música tradicional ou do jazz.

Desde a sua fundação, o grupo desenvolve uma intensa actividade concertística de centenas de concertos na Europa e Ásia, de onde se destacam: Portugal: Centro Cultural de Belém (Grande Auditório, Pequeno Auditório), Fundação Calouste Gulbenkian (Grande Auditório), Casa da Música (Sala Suggia), Festival Cistermúsica, Festival de São Roque, Festival das Artes de Coimbra, Festival dos Capuchos, Festival Internacional de Música da Madeira, Festival Internacional de Música dos Açores, Festival Fora do Lugar, Festival de Leiria, Festival de Almada, Festival Terras sem Sombra, Encontros de Música Antiga de Loulé, Memórias Musicais de um Palácio (Sintra), Festival Todos, Festival Internacional de Música de Espinho, Fundação Oriente, Festival Artes à Vila, Quartel das Artes, Teatro Viriato, Theatro Circo (Sala Principal) (...); Bulgária: Zora Dramatic Theatre (Sliven); Itália: Ravenna, Festival Internazionale W. A. Mozart a Rovereto); Malta: BirguFest; Espanha: Festival de Música Antigua de Gijón, Festival de Música Antigua de Úbeda y Baeza, Museo Nacional de Valladolid, Fundación Juan March (Madrid), Abvlensis Festival Internacional de Musica, Teatro Zorilla (Valladolid) (…); China: Macao Internacional Music Festival; Suécia: Stockholm Early Music Festival; França: Festival Baroque de Sablé, Opéra de Lille (...); Bélgica: Gent Festival van Vlaanderen, Flemish Opera (Gent), Bozar (Bruxelles), Music Center DeBijloke (Gent) (...); Noruega: Stavanger Konzerthus; República Checa: Letní slavnosti staré hudby (Summer Festivities of Early Music, Prague); Luxemburgo: Philharmonie Luxembourg (Salle de Musique de Chambre, Grand Auditorium), Festival Atlântico; Alemanha: Elbphilharmonie Laeiszhalle Hamburg (Grosse Saal); Croácia: Varaždinske Barokne Večeri/ Varaždin Baroque Evenings (Varaždin e Ludbreg).

Sete Lágrimas chama frequentemente, aos seus projectos, músicos convidados das áreas da Música Antiga e da música tradicional, jazz e do mundo. Destes, destacam-se o Coro Gulbenkian (Portugal), María Cristina Kiehr (Argentina), Zsuzsi Tóth (Hungria), Ana Quintans (Portugal), Mayra Andrade (Cabo Verde), António Zambujo (Portugal), Adufeiras de Monsanto (Portugal), CRAMOL (Portugal), Tainá (Brasil), Carolina Deslandes (Portugal) ou Ana Moura (Portugal).

No contexto dos projectos de diálogo entre a Música Antiga e a contemporânea – New Early Music Series –, Sete Lágrimas estreia obras, especialmente dedicadas ao consort, dos compositores Ivan Moody (Inglaterra), João Madureira (Portugal), Andrew Smith (Inglaterra/Noruega), Christopher Bochmann (Inglaterra) e Filipe Faria e Sérgio Peixoto (Portugal). Em 2011 Sete Lágrimas apresentou, em estreia mundial, no Festival das Artes de Coimbra, a encomenda da obra Lamento ao escritor José Luís Peixoto, vencedor do Prémio Literário José Saramago, e ao compositor João Madureira.

Com uma discografia de 16 títulos – Lachrimæ #1 (2007), Kleine Musik (2008), Diaspora.pt: Diáspora, vol.1 (2008), Silêncio (2009), Pedra Irregular (2010), Vento (2010), Terra: Diáspora, vol.2 (2011), En tus brazos una noche (2012), Península: Diáspora. vol.3 (2013), Cantiga (2014), Missa Mínima (2016), Um dia normal - poema gráfico com texto e ilustrações de Filipe Faria e música de Sete Lágrimas - (2015), Twentie Yeares in Seaven Teares (2020), Loa (2023), Folia Nova (2023) e BACH (2024) – o consort é considerado pela crítica como um dos mais relevantes e inovadores projectos europeus na área da Música Antiga. Internacionalmente, destacam-se as críticas discográficas e de concerto na International Record Review, Doce Notas, Aftonbladet, Novinky, Opera PLUS, Svenska Dagbladet, Lute News, Goldberg, etc. e a permanência regular nas playlists das rádios clássicas de vários países europeus.

Em 2008, 2011 e 2012 os três primeiros títulos do projecto Diáspora atingem o primeiro lugar do TOP de vendas das lojas FNAC. Em 2010, “Diaspora.pt” foi escolhido, no “Guia da Música Clássica” como “Discografia Essencial”, e a carreira do Sete Lágrimas destacada na publicação “Alma Lusitana” (FNAC).

Em 2011/2012 Sete Lágrimas é convidado para assumir o estatuto de Ensemble Associado da Temporada do Centro Cultural de Belém (CCB/Lisboa) tendo apresentado o “Tríptico da Terra” em três concertos esgotados.

A convite da rádio clássica RDP Antena 2, Sete Lágrimas foi, em 2014, o representante português no projecto europeu da UER/EBU Union Européenne de Radio-Télévision – EURORADIO – Christmas Folk Music Project – emitido em 30 rádios de 28 países como a BBC Radio 3 ou a France Musique.

Em 2018 a Philharmonie Luxembourg e Pascal Sticklies convidam Sete Lágrimas a desenvolver – entre 2018 e 2022 ­– uma trilogia de projectos de criação original sob a designação “Les Explorateurs” –  “Les Explorateurs” (2018), “La Princesse Mystérieuse” (2019/20) e “Le Vieux Roi et la Lune” (2020/22) –, inspirada no universo musical de Sete Lágrimas, com 54 récitas esgotadas em 4 anos. A equipa internacional e multdisciplinar dos três projectos, liderada pelo encenador e dramaturgo Benjamin Prins (França), contou com a assistente de direcção e dramaturga Pénélope Driant (França), a cenógrafa e figurinista Nina Ball (Áustria), a assistente de figurinos e cenografia Nathalie Villarmé (França), a coreógrafa Sabine Novel (França) e, em palco, com o consort Sete Lágrimas e os actores e bailarinos Jan Bastel (Alemanha), Nestor Kouame Dit Solvis (Costa do Marfim), Winnie Dias (Brasil), Alexandre Martin-Varoy (França), Fábio Krayze (Angola) e Alexander Fend (Alemanha). Em 2024 a Philharmonie Luxembourg repõe “La Princesse Mystérieuse” numa série de 13 récitas esgotadas elevando o total de récitas da trilogia para 67.

Em 2021 Sete Lágrimas junta-se ao projecto “If I rained an ocean” (Se chovesse um oceano) de Filipe Faria e Winnie Dias (Brasil), um projecto de video-dança, música, fotografia e performance filmado por estes realizadores em Berlim, Hamburgo, Düsseldorf, Wuppertal (Alemanha), Zürich (Suiça) e Idanha-a-Velha (Portugal), com os bailarinos Futaba Ishizaki (Japão), Naomi Brito (Brasil), Rafaela Bosi (Brasil), Rafaelle Queiroz (Brasil), Fuyumi Hamashima (Japão), Isabella Heylmann (Austrália), Hayley Page (Austrália) e Borja Bermudez (Espanha). Em 2022, o filme “Ego”, realizado por Winnie Dias sobre  “Pues que veros” – um “novo vilancico” composto por Filipe Faria e Sérgio Peixoto sobre um poema do século XVI – foi vencedor do prémio “Best Music Video “ no 5th MiMo - Milano Mobile Film Festival (Itália). Em 2023, o mesmo filme foi quarter-finalist na International Short Film Competition! do Flatlands Dance Film Festival (Nevada, Estados Unidos da América). “Ego” e “Solitude” – realizado sobre “Cruel saudade” (anón., Brasil) –, fazem, ainda, parte da Selecção Oficial do Super 9 Mobile Film Fest.

A convite do Centro Cultural de Belém - Fábrica das Artes - Filipe Faria e Sérgio Peixoto desenvolvem, entre Setembro de 2021 e Maio de 2022, o projecto SETE – Novos Criadores das Infâncias – com um grupo de nove jovens músicos. Este projecto de tutoria desdobrou-se num conjunto de masterclasses, residências artísticas, talks, formações e novas criações em torno do universo criativo, conceptual e formal das Sete Lágrimas.

No contexto das comemorações dos 20 anos de carreira, a Arte das Musas edita o livro Twentie Yeares in Seaven Teares – Vinte Anos em Sete Lágrimas: Os primeiros vinte anos de Sete Lágrimas ECMC, que inclui um CD best-of da discografia completa do consort a par de dois “novos vilancicos” inéditos e um conjunto de 30 depoimentos de directores artísticos de salas e festivais europeus.

Em 2023 Sete Lágrimas edita o seu 14º título, intitulado Loa, uma proposta de contrafacta dedicada ao diálogo entre as melodias dos Laudários italianos de Cortona e Firenze e as traduções quatrocentistas do bispo português André Dias de Escobar (Lisboa, ?1348-1450/51). O projecto foi desenvolvido em parceria com os Professores Doutores Manuel Pedro Ferreira (CESEM/Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Universidade Nova de Lisboa, Portugal) e Blake Wilson (Professor Emeritus of Music, Department of Music/Dickinson College, EUA).

Ainda em 2023, o consort edita o seu 15º título, intitulado Folia Nova, projecto integrado na sua série Nova Música Antiga (New Early Music Series, vol.5), música composta por Filipe Faria e Sérgio Peixoto a partir de poesia portuguesa dos séculos XV e XVI. Folia Nova foi nomeado, em 2024, na categoria “Melhor Álbum de Música Clássica/Erudita” nos Prémios Vodafone PLAY - Prémios da Música Portuguesa.

Em 2024, sob encomenda da Arte das Musas, Filipe Faria e Sérgio Peixoto criam, para Sete Lágrimas, o projecto L3 Leipzig Lisboa Luanda (a partir de Bach) estreado nos Festivais GREC Barcelona and Bachcelona (Barcelona, Espanha) e desdobrado numa série de duas screendances realizadas por Filipe Faria com o bailarino angolano Fábio Krayze.

O projecto, com o título BACH, é o 16º título da discografia do consort, um ensaio sonoro e visual, um diálogo entre a música de Bach e novas partículas, criadas e recriadas por Filipe Faria e Sérgio Peixoto para Sete Lágrimas, tecido entre a fotografia e as paisagens sonoras de Filipe Faria.

Entre 2025 e 2027, Sete Lágrimas edita, numa trilogia, a integral do Cancioneiro de Elvas (Elvas, Biblioteca Municipal Públia Hortênsia, Ms 11793), um manuscrito português do século XVI e uma das fontes mais importantes de música profana na Península Ibérica.

Sete Lágrimas conta com o apoio do Ministério da Cultura (Governo de Portugal) e da Direcção-Geral das Artes, desde 2003, e do Município de Idanha-a-Nova - UNESCO Creative City of Music, desde 2012. É representado e editado pela Arte das Musas.

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova

“A Arte das Musas, em parceria com o Município de Idanha-a-Nova, UNESCO City of Music, e o apoio da Direcção-Geral das Artes, apresenta”


Por: Tiago Carvalho

Guardados 003

Filipe Faria

 

INAUGURAÇÃO

 

18 Julho 2025, Sexta-feira, 21h00

Idanha-a-Nova, Centro Cultural Raiano

Entrada livre

No dia 18 de Julho, sexta-feira, 21h00, na Sala 1 do Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova), a Arte das Musas, em parceria com o Município de Idanha-a-Nova e com o apoio da Direcção-Geral das Artes, inaugura a exposição intitulada Guardados 003 — O Vazio —, o terceiro volume do projecto Guardados, de Filipe Faria.

Este volume nasce de uma peça, de um “guardado” — uma cesta —, da colecção do CCR, para propor uma visão contemporânea em torno do texto, da imagem e do som

Um guardado é um objecto que sobreviveu ao tempo com intenção. É um daqueles objectos que decidimos poder vir a fazer parte de nós, do que somos hoje, na antecipação de um futuro em que precisamos de ser recordados da sua importância. Guardamos um guardado porque o queremos fixar no tempo, neste tempo… para que não se perca nunca.

No mesmo dia será lançado o livro e a exposição ficará patente entre 18 de Julho e 12 de Setembro de 2025, no Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova).

Conto do vazio (Excerto)

— Filipe Faria

“Este, como todos os objectos que não são inteiramente conscientes mas que, pela frequência do uso e pela proximidade com o corpo humano, vão adquirindo uma espécie de memória que não é bem memória e uma espécie de pensamento que não chega a ser pensamento, mas que em certas circunstâncias pode confundir-se com ele, este, dizia, foi construído por um homem que não sabia que estava a construir o vazio, mas apenas a entrelaçar vergas de castanho segundo a técnica que lhe ensinara o pai e que o pai aprendera com um homem de fora, vindo sabe-se lá de onde, talvez do lado de lá do rio ou de mais longe ainda, um desses homens que aparecem nas aldeias como se tivessem vindo do fundo da terra e desaparecem da mesma maneira, deixando atrás de si uma receita de pão, uma superstição e um gesto com as mãos que, quando repetido com a devida paciência, resulta num objecto capaz de conter outras coisas, como legumes, galinhas mortas, mantas dobradas ou mesmo, numa emergência que não chegou a ser relatada mas que aconteceu, um animal recém-nascido embrulhado em panos, não para ser salvo nem para ser escondido, mas porque havia pressa e mais ninguém tinha braços.” (...)

Posfácio

— Paulo Longo

Não raras vezes, damos mais visibilidade ao contexto de produção de um objecto do que à(s) vida(s) que este ganha nas mãos de quem o utiliza no seu quotidiano. É compreensível: a classificação, por mais exaustiva, deixa de fora declinações do uso que obedecem a propósitos ou intervenções mais particulares que se identificam com a relação funcional que se estabelece entre objecto e utilizador. E é perfeitamente aceitável que, nesse domínio, se escapem detalhes cujo alcance é, tantas vezes, fortuito.

A história da cesta de Maria do Carmo Milheiro enquadra-se, precisamente, aí. Falecida em 1998, deixou o legado que tantas mulheres, mães e avós, deixaram por estes lados: as memórias de uma via feita de trabalho árduo, de sacrifício, de saberes e sabores de referência, que perduram até hoje na família e na comunidade da aldeia onde sempre viveu, Oledo.

Esta cesta configura, de certa forma, um legado a posteriori, reflexo indirecto de um dos trabalhos em que era exímia, a sua horta. Mas não só. Guardada no local onde Maria do Carmo a deixou, a cesta viria a revelar uma história peculiar. Não se trata apenas de um objecto que chegou até nós com marcas de uso mas em bom estado – o que só por si, já seria notável, considerando a relativa fragilidade da matéria de que é feito. Trata-se, sobremaneira, do testemunho de um gesto outrora mais comum: o esforço posto em conservar a funcionalidade, recuperando danos sofridos e melhorando a capacidade do objecto em corresponder às necessidades do uso quotidiano num tempo que os recursos eram mais escassos. Resultado: a cesta de verga de castanho não é apenas uma cesta em verga de castanho.

Numa analogia forense, o que nos diz o corpo? Primeiro, os danos. Que marcas deixou o uso continuado, carregando pesos, sofrendo quedas. Em dado momento a asa quebrou-se pela base das vergas, junto ao bordo. Noutra ocasião o encanastrado do fundo partiu-se em vários pontos, deixando um buraco considerável. Porém, à primeira vista, a cesta parece intacta. Logro que apanhou desprevenidos quem a trouxe de volta à esfera do visível – o pó e a patine fizeram bem o seu trabalho.

A limpeza trouxe o reconhecimento de um extenso e bem executado trabalho de reconstrução que, mais do que refazer partes criou uma cesta mais funcional e robusta no seu todo. Como? Incorporando cuidadosamente elementos metálicos com uma qualidade de execução que os torna pouco perceptíveis a um olhar desatento: a alça integralmente substituída por uma tira de ferro reproduzindo a forma original, encaixando-se ao longo do corpo como de uma verga de castanho se tratasse; os encaixes quebrados bem rematados à cota do bordo; a folha de alumínio a cobrir mais do que a falha original, num reforço estrutural igualmente bem integrado.

A cesta escapou, assim, ao prosaico destino dos objectos quebrados. Ganhou uma segunda vida que perdurou enquanto perdurou a de quem lha deu. Num tempo em que sustentabilidade passou a jargão, eis um exemplo que nos chega de um outro tempo, de uma sociedade rural onde a necessidade e a respectiva satisfação obedeciam a um pragmatismo que não excluía um toque criativo.

Esta é a lição que nos deixou Maria do Carmo Milheiro, a somar às muitas que soube transmitir enquanto esteve entre nós. E, como ela, muitos outros deixaram testemunhos tão pertinentes como tocantes, ainda dispersos no espaço e no tempo. À espera, guardados.

Cesta

Coincidente com as formas produzidas pelos cesteiros de Alcongosta (Fundão) a partir de verga delgada de castanho. Apresenta uma forma rectangular, com bordo reforçado e asa em arco. A asa é executada com três vergas que arrancam da caixa, separadas num reforço tripartido, para se unirem no topo, formando a pega que se encontra parcialmente embainhada com fio — trapo era outra opção comum —, com a finalidade de proteger a palma da mão ao agarrar. Foi utilizado em Oledo para transportar produtos da horta ao longo de um período estimado em, pelo menos, cerca de três décadas, apresentando intervenções de recuperação/manutenção para garantir a sua funcionalidade.

Local de fabrico: Alcongosta, Fundão (atrib.).

Local de utilização: Oledo, Idanha-a-Nova

Período de utilização: até finais da década de 1990

Medidas (cm): 34 (c.) x 32 (l.) x 35 [a.]

Capacidade: 0,24 m3

Colecção: Incorporado em 2024 na colecção do Centro Cultural Raiano

Website

www.guardados.pt

Um projecto Arte das Musas

Com o apoio República Portuguesa - Cultura \Direção-Geral das Artes

Em parceria com Município de Idanha-a-Nova \UNESCO City of Music

Guardados

— Filipe Faria

Um guardado é um objecto que sobreviveu ao tempo com intenção. É um daqueles objectos que decidimos poder vir a fazer parte de nós, do que somos hoje, na antecipação de um futuro em que precisamos de ser recordados da sua importância. Guardamos um guardado porque o queremos fixar no tempo, neste tempo… para que não se perca nunca.

Guardado (adjectivo): Protegido ou defendido contra algo ou alguém; Que se conserva para não se deteriorar; Posto de parte; Oculto, escondido.

Guardados (nome masculino plural): Objectos que se guardam em caixas ou outros compartimentos.

Um guardado pode ser uma fotografia de um acontecimento mais ou menos especial, mais ou menos banal, uma fotografia nossa ou de outrem. De um agente activo na nossa história ou de um desconhecido, ou de um grupo de desconhecidos, ou de um grupo de desconhecidos à volta de um conhecido. Pode ser aquela tesoura da poda que nunca falhou, aquele colar que nos definia, aquele apontamento de coisa importante ou daquela vez em que nos saíu um verso ou uma estrofe. Pode ser um recorte escurecido de uma revista ou jornal entretanto desaparecidos. Pode ser um equipamento tecnológico de ponta, entretanto obsoleto. Pode ser grande, não tem de ser pequeno (haja espaço para guardar o guardado). Pode ser uma escada de azeitona na qual os nossos pais e avós subiram e desceram milhares de vezes. Pode, até, ser um guardado de gerações… um que nunca experimentámos e que não experimentaremos porque não queremos correr o risco.

Com estes guardados podemos contar uma história… a dele, do seu dono ou dona. Ou outra história qualquer, aquela que nos vier à cabeça quando o vemos, tocamos, cheiramos… quando imaginamos, condicionados, como sempre somos, pelo que sabemos ou ignoramos. Estes são os guardados sobre os quais quero contar histórias.

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova

“Projetos europeus - Idanha apresenta duas candidaturas ao Programa URBACT IV”


Por: Tiago Carvalho

O Município de Idanha-a-Nova apresentou duas candidaturas à convocatória “Transfer Networks” do URBACT IV, programa europeu que apoia cidades e territórios na implementação de políticas sustentáveis e integradas.

Como parceiro-líder, Idanha propôs a rede Recomeçar@URBACT, que junta Jonadi (Itália), Khotyn (Ucrânia), Loutraki (Grécia), MACMA-Marina Alta (Espanha) e Nyborg (Dinamarca) para testar durante 30 meses a estratégia local de revitalização rural “Recomeçar”, através dos programas Green Valley, Live, Try e Made-In, testando-a em contextos rurais, peri-urbanos e pós-conflito. O objetivo é combater o despovoamento, criar emprego qualificado e tornar estes territórios referências europeias de revitalização territorial sustentável.

Simultaneamente, Idanha integra a candidatura Eat4Climate, liderada por Mouans-Sartoux (França) e focada na transição alimentar sustentável para reduzir a pegada de carbono. A rede conta ainda com Liège (Bélgica), Cagliari (Itália), Faaborg-Midtfyn (Dinamarca), Ljubljana (Eslovénia) e Rozdilna (Ucrânia). Juntos, os parceiros irão adaptar o modelo de cantinas 100% biológicas e de educação alimentar do município francês.

As duas candidaturas representam um investimento europeu de aproximadamente 280.000,00€ para o Município de Idanha-a-Nova, com uma taxa de comparticipação de 80%.

Com decisão final esperada nos próximos meses, prevê-se que as redes arranquem em novembro de 2025, potenciando o posicionamento de Idanha-a-Nova como território de referência na revitalização rural e na transição alimentar.

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova

“Universidade Sénior - USIN celebra 10 anos com concerto especial em Idanha”


Por: Tiago Carvalho

A Universidade Sénior de Idanha-a-Nova (USIN) celebrou, dia 5 de julho, o encerramento do seu 10º ano letivo com um concerto único no Auditório Exterior do Centro Cultural Raiano.

Mais de 200 alunos da USIN protagonizaram um espetáculo singular, que celebrou as raízes da música tradicional do concelho, com arranjos da maestrina Carla Costa.

O projeto da Universidade Sénior, desde a sua criação, tem contado com o apoio do Município de Idanha-a-Nova e a coordenação da Filarmónica Idanhense, o que reflete um compromisso com a valorização cultural do território.

Este evento celebrou uma década de dedicação ao ensino e à cultura, destacando o papel da USIN na promoção da aprendizagem e integração da comunidade sénior.

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova

“Cultura - Rancho Etnográfico de Idanha-a-Nova celebra 90 anos de história e tradição”


Por: Tiago Carvalho

O Rancho Etnográfico de Idanha-a-Nova celebra, no próximo dia 12 de julho, 90 anos de dedicação à preservação da cultura e das tradições do nosso concelho.

Uma data marcante que será assinalada com uma noite cultural, aberta a toda a comunidade, no Centro Cultural Raiano, a partir das 21h30.

O espetáculo conta com a atuação de três grupos que celebram a música e a identidade portuguesa: Adufeiras de Idanha-a-Nova; Os Boinas, de Ferreira do Alentejo; e Orfeão da Comenda.

Tradição, música e identidade num só palco. Contamos com a sua presença!

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova

“MUNICÍPIO DISTRIBUIU VERBA DE 558.955 € PARA APOIO À ATIVIDADE FÍSICA DO CONCELHO”


A sessão de assinatura dos contratos do “Programa de Apoio à Atividade Física” da Câmara Municipal de Torres Vedras, relativa à época de 2024/2025, realizou-se na tarde do passado dia 2 de julho, no auditório do Edifício Paços do Concelho.

No âmbito desta edição do programa foi atribuído um montante total de 558.955 € a 52 associações, representando este valor um aumento em 87.725 € face à época anterior. 2024/2025 é, assim, a época que registou um maior número candidaturas e o valor mais elevado de apoios, o que se deve ao aumento no número de atletas federados e ao facto de passarem a ser consideradas candidaturas a eventos com apoios superiores a 2.500 €.

Na ocasião, a presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Laura Rodrigues destacou a promoção da Ética no Desporto, pelo Município, com atividades alinhadas a este eixo e que, referiu “fazem cada vez mais sentido na sociedade atual”, dando como referência o incremento de certas modalidades e da representatividade feminina. Laura Rodrigues endereçou ainda um agradecimento a todas as entidades desportivas pela sua importância na promoção de uma vida saudável e ativa, das crianças e jovens do Concelho.

De referir que o “Programa de Apoio à Atividade Física” municipal divide-se em cinco subprogramas, sendo o mais significativo o de apoio à atividade física federada. Em 2024/2025, foram abrangidos por este subprograma 3.908 atletas federados dos escalões de formação de 19 modalidades distintas, com prevalência para o Futebol, representando um investimento de 353.890 €.

Relativamente ao subprograma de promoção da atividade física não federada, que se destina a apoiar atividades regulares com enquadramento técnico, foi alocado um valor de 170.250 €. Atividades Aquáticas e Fitness são as que apresentam maior prevalência neste subprograma, através do qual foram apoiados 210 eventos desportivos, com uma verba de 68.900 €.

No que concerne à formação de agentes desportivos, subprograma que visa a melhoria do desempenho das organizações e das pessoas envolvidas nos processos de desenvolvimento do Desporto no Concelho, este permitiu apoiar a organização e participação em ações de formação, ao longo da época 2024/2025, com um montante de 10.569 €. Possibilitou a organização de 38 ações de formação pelos clubes, e a participação de 11 associações em ações de formação.

O subprograma de apoio à promoção da ética no Desporto, que, recorde-se, foi iniciado em 2019/2020, registou um aumento no valor do apoio para entidades com certificação da bandeira da ética, passando de 1.000 € para 2.000 €.  Por meio deste subprograma foram apoiadas cinco associações de Torres Vedras, quatro com bandeira da ética (Associação de Educação Física e Desportiva de Torres Vedras, Sport Club União Torreense, Sporting Clube de Torres, Clube Karaté Shodai) e uma com um projeto certificado (Associação de Formação Pedagógica Torres Vedras – Janitas), num investimento total de 8.500 €.

O apoio ao Desporto para Pessoas com Deficiência, subprograma criado em janeiro de 2022, que possibilita a frequência gratuita de atletas nas atividades praticadas, contou com um investimento de 15.851 €.  Por meio deste subprograma foram apoiados 3 atletas, integrados em ofertas desportivas já existentes (modalidades de Atletismo e Escalada), e 39 atletas em ofertas desportivas específicas, bem como 15 atividades criadas especificamente para pessoas com deficiência, promovidas por quatro clubes (Clube Voleibol Madeira Torres, Clube Académico Penafirme, Associação de Educação Física e Desportiva de Torres Vedras, e APECI – Associação para a Educação de Crianças Inadaptadas).

De destacar que foi criado um apoio específico para os clubes que desenvolveram processos de certificação, como entidades formadoras de Futebol e Futsal Masculino e Feminino, pela Federação Portuguesa de Futebol.

De destacar ainda que o valor do apoio à organização de provas de estrada e corta-mato, do Campeonato Municipal de Atletismo, passou de 400 € para 500 €.

Fonte: Câmara Municipal Torres vedras

“OS DOMINGOS DE AGOSTO LEVAM UMA NOVA BANDA SONORA AO JAMOR COM O SOMERSBY OUT JAZZ”


Por: Maria Francisca Espadinha

Numa das localizações mais icónicas do concelho de Oeiras, o Out Jazz desloca-se para o Parque Urbano do Jamor com a promessa de animar os finais de tarde de domingo

Agosto é, por excelência, o mês em que a capital desacelera, e é neste espírito mais leve e quente que o Somersby Out Jazz regressa ao Parque Urbano do Jamor com um cartaz que promete tirar todos de casa e envolvê-los numa experiência única onde a tranquilidade da natureza se funde com a banda sonora vibrante que já é imagem de marca deste festival.

O Parque Urbano do Jamor, no concelho de Oeiras, é muito mais do que um complexo desportivo: com a sua extensa zona de mata e as múltiplas valências associadas ao lazer, é o palco perfeito para o Somersby Out Jazz neste mês de agosto. Entre árvores e espaços verdes, este festival convida a desfrutar de momentos de descontração e boa música que encerram em pleno cada domingo do mês.

Com as ruas mais calmas e as praias mais cheias, o Jamor surge como refúgio para quem procurar fugir à confusão e celebrar o verão em plena harmonia com a natureza. Nos dias 3, 10, 17, 24 e 31 de agosto, entre as 170h00 e o pôr do sol, o Somersby Out Jazz recebe nomes como Jazzopa, REFOGADO e Fella Ayala, garantindo uma programação diversificada que promete agradar a todos, independentemente do estilo musical de eleição.

Com o apoio dos Sunday Sponsors, Bico Amarelo e Montebelo Brasil, os fins de tarde de domingo prometem ser mais frutados, sumarentos e imperdíveis, a combinação perfeita entre música, natureza e sabores refrescantes é no Somersby Out Jazz.

Para mais informações, novidades ou consulta do cartaz completo, basta aceder ao site oficial do festival, ler o QR Code presente no cartaz ou consultar as redes sociais do Somersby Out Jazz.

 

Programação de agosto:

 

3 de agosto

• Rafael Santos Quinteto;

• Fella Ayala.

 

10 de agosto

• jazzopa;

• Mr. Bird.

 

17 de agosto

• Juliana Mendonça Sexteto;

• REFOGADO.

 

24 de agosto

 

• ... (AVDYSH & XAVIER);

• MEI GLEZ.

 

31 de agosto

• Indra Trio;

• Rádio Barraka.

Fonte: MARIE – PR & Brand Consulting

“Rainhas do AutoEngano atuam no CCR”


Concerto dia 11 de julho

Por: Tiago Carvalho

Após percorrer o país de norte a sul, o trio transatlântico Rainhas do AutoEngano, formado pelas cantautoras Kali Peres, Madalena Palmeirim e Natalia Green, está em residência artística no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova, entre 5 e 11 de julho, para a criação de quatro temas originais, gravação de EP para distribuição digital, e apresentação ao vivo no dia 11 de julho, às 21h30, na Sala da Agricultura do CCR.

O concerto — intimista e de reflexão coletiva sobre a importância de valores como o poder do coletivo feminino e a igualdade de género — propõe um balanço entre repertório antigo e temas recém-nascidos em residência, ainda que incompletos ou em processo.

Aguça-se o engano e adoça-se o engenho para celebrar um espaço seguro e sem fronteiras — imenso, diverso e mais igual —, lembrando-nos que é na potência da colaboração e na leveza da união que o estrondo se dá.

As Rainhas do AutoEngano são o resultado do encontro pouco provável entre as suas integrantes, que cantam repertório original, abraçando diferentes idiomas, compondo em português e francês. As vozes são acompanhadas pelo cavaquinho e guitarras acústicas, numa dança entre a Pop, a Bossa Nova, a MPB (Música Popular Brasileira) ou o Folk.

A entrada é gratuita, mas a reserva é obrigatória, preferencialmente através do telefone 277 202 900. Os bilhetes podem ser levantados na bilheteira do CCR uma hora antes do concerto.

A residência conta com o apoio da República Portuguesa – Cultura/Direção Geral das Artes, ao abrigo do Programa de Apoio à Programação da RTCP.

Em www.idanha.pt/agenda é possível encontrar mais informações.

Fonte: Câmara Municipal Idanha-a-Nova