Por: Ângela Reis Rego (Coordenadora da Unidade de Vertigem do Instituto CUF Porto)
A vertigem não é um
diagnóstico. É um sintoma que merece investigação cuidadosa, pode afetar 1 em
cada 5 adultos e, em pessoas acima dos 75 anos, sobe para cerca de 30%. Se o
mundo à sua volta parece girar, não ignore.
De repente, o mundo começa a
girar. Quem já passou por uma crise de vertigem sabe que não se trata de uma
simples tontura ou de um ligeiro desequilíbrio. É uma sensação intensa, muitas
vezes acompanhada de náuseas ou vómitos e incapacitante: parece que tudo roda à
sua volta ou que o próprio corpo se move – embora, na verdade, esteja quieto.
Apesar de frequente, a
vertigem apresenta alguns desafios. Estima-se que possa afetar até 1 em cada 5
adultos e, em pessoas acima dos 75 anos, sobe para cerca de 30%. Ainda assim,
muitos doentes chegam à consulta de Otoneurologia – área da Otorrinolaringologia
dedicada ao ouvido interno – apenas com a vaga designação de “síndrome
vertiginoso”, expressão que, na prática, não é muito esclarecedora.
Mas, afinal, o que causa a
vertigem? Esse é o verdadeiro desafio. A origem pode estar no ouvido interno ou
no sistema nervoso central. A doença mais comum do ouvido interno que causa
este sintoma é a vertigem paroxística posicional benigna (VPPB), vulgarmente
conhecida como “a doença dos cristais”.
Esta patologia manifesta-se,
sobretudo, em mulheres após os 45 anos e estudos recentes apontam como
possíveis fatores de risco o défice de vitamina D e a osteoporose. Com a VPPB,
o doente sente o mundo rodar ao mover a cabeça e, assim, tornam-se particularmente
desafiantes tarefas simples como deitar e levantar da cama, apertar os sapatos,
tomar banho ou estender roupa. Felizmente, apesar de incapacitante, a VPPB tem
uma solução relativamente simples: manobras específicas em que se reposicionam
os cristais. Na VPPB, importa referir que é muito raro ser necessário o uso de
medicamentos.
Outra patologia que afeta o
ouvido interno é a Doença de Ménière, mais rara, mas muito marcante. Causa
crises de vertigem acompanhadas de perda de audição, zumbido e sensação de
ouvido cheio. Esta é uma doença que afeta maioritariamente mulheres de meia-idade,
sendo que, em alguns casos, há história de vários membros da mesma família
afetados. O tratamento médico é individualizado e, em casos graves, pode
incluir injeções de fármacos no ouvido ou mesmo cirurgia.
A “neuronite vestibular” é
também uma condição que afeta o ouvido interno, surgindo, habitualmente, após
uma gripe ou constipação. O doente tem um episódio súbito de vertigem intensa,
com náuseas e vómitos que podem durar alguns dias. Depois, pode persistir
desequilíbrio, sendo útil a reabilitação vestibular – tratamento personalizado
prescrito por otorrinolaringologistas e realizado por audiologistas e/ou
fisioterapeutas.
Mais rara, mas grave, é a
labirintite, que além da vertigem causa perda de audição e resulta de infeções
que atingem o ouvido interno e o sistema nervoso central. Requer tratamento em
regime de internamento na maioria das vezes e, em alguns casos, cirurgia.
Nem sempre, porém, a vertigem
vem do ouvido interno. Pode estar associada a outros problemas médicos, como
enxaqueca, acidentes vasculares cerebrais (AVC) ou, em casos excecionais, a
tumores do sistema nervoso central.
Nos idosos, ou em quem tem
problemas de mobilidade, cardiovasculares ou neurológicos, a vertigem aumenta
muito o risco de quedas e de fraturas graves. Daí a importância de procurar
ajuda cedo e de recorrer a uma abordagem multidisciplinar que envolva profissionais
dedicados a esta área.
Otorrinolaringologistas e
neurologistas são os profissionais indicados para uma primeira abordagem da
vertigem, podendo ser necessária intervenção de outras especialidades, não só
médicas, como técnicas, como, por exemplo, a Audiologia e a Fisioterapia, particularmente
no que diz respeito à reabilitação em casos em que o doente apresente sintomas
mais crónicos, sejam de vertigem, tontura ou desequilíbrio.
Em resumo, a vertigem não é um
diagnóstico. É um sintoma que merece investigação cuidadosa. Se o mundo à sua
volta parece girar, não ignore e procure avaliação médica.
Fonte: Sapo on-line Saúde

