terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

“Cuidadores de doentes raros enfrentam crise silenciosa de saúde mental, revela estudo nacional”


Por: José Morais

Um estudo inédito em Portugal, desenvolvido pela Escola Nacional de Saúde Pública em colaboração com a RD-Portugal, traça um retrato preocupante da realidade vivida por cuidadores informais de pessoas com doenças raras. Os resultados mostram níveis elevados de ansiedade, depressão, dor física e sobrecarga emocional, evidenciando uma crise silenciosa que se prolonga há anos e que começa agora a ganhar visibilidade pública.

De acordo com a investigação, 72% dos cuidadores apresentam sintomas de ansiedade ou depressão e 68% referem dor ou desconforto persistentes. Mais de metade vive com níveis moderados a elevados de sobrecarga, comprometendo o equilíbrio físico, psicológico e emocional. Quase 70% admite precisar de apoio externo para poder descansar ou cuidar da própria saúde, um dado que reforça a urgência de respostas sociais estruturadas.

O inquérito envolveu 116 cuidadores, maioritariamente mulheres (85%) e, na sua maioria, mães e pais (88%), com idade média de 46 anos. Apesar de quase metade possuir ensino superior, 16% encontram-se desempregados e 12% reformados, uma realidade que os investigadores associam diretamente à exigência de cuidar a tempo inteiro. A dedicação diária é intensa: a maioria presta cuidados durante mais de seis horas por dia e, em 40% dos casos, essa responsabilidade prolonga-se há mais de uma década.

O estudo destaca ainda o impacto do atraso no diagnóstico. Em 72% das situações, a pessoa com doença rara só obteve um diagnóstico após três anos, um período marcado por incerteza, peregrinação pelos serviços de saúde e agravamento da carga emocional das famílias. Os cuidadores mais velhos e aqueles que acompanham adultos com doença rara apresentam piores indicadores de qualidade de vida e maior sobrecarga.

Outro dado considerado crítico é a falta de preparação formal: 81% dos cuidadores nunca recebeu formação específica, embora 96% afirmem sentir-se confiantes no desempenho do seu papel. Essa confiança, sublinham os autores, não elimina a carência de apoios institucionais. Cerca de 31% dos cuidadores não beneficia de qualquer tipo de suporte e, entre os que o têm, predominam ajudas pontuais em tarefas domésticas ou transporte para consultas. Apenas 6% referem ter acesso a medidas de descanso do cuidador.

Quando questionados sobre o futuro, 69% expressa o desejo de ter alguém que os substitua temporariamente, permitindo-lhes descansar, tratar da própria saúde ou dedicar tempo a outros membros da família. Para os investigadores, este dado evidencia a necessidade de soluções inovadoras, flexíveis e adaptadas à especificidade das doenças raras.

“Os cuidadores familiares de pessoas com doenças raras são pilares invisíveis do sistema de cuidados. Este estudo confirma, de forma inequívoca, que vivem sob uma pressão acumulada ao longo dos anos e que é urgente criar respostas de saúde e sociais que promovam o autocuidado e melhorem a qualidade de vida destas famílias”, afirma Ana Rita Goes, coordenadora do estudo.

As conclusões ganham particular relevância num momento histórico em que Portugal começa a reconhecer formalmente o papel dos cuidadores informais. Nesse contexto, os promotores destacam o projeto CUIDARaro, iniciativa pioneira da RD-Portugal que assegura até 20 horas mensais de descanso através da substituição por cuidadores formais, durante um período que pode chegar a um ano. Mais do que tempo livre, o programa representa um passo estruturante na valorização social e política de quem cuida.

O estudo foi apresentado publicamente em setembro, em Coimbra, no âmbito do I Encontro CUIDARaro, uma conferência nacional que reunirá cuidadores, especialistas, associações e decisores políticos. O objetivo é claro: transformar dados científicos em ação concreta e dar voz a uma comunidade que, durante décadas, permaneceu à margem do debate público.