domingo, 14 de julho de 2024

“Saúde: Dor crónica, como compreender e tratar o sofrimento constante?”


Por: Armando Barbosa, médico anestesiologista e diretor da Paincare

 

A dor crónica é uma condição que afeta cerca de 3 milhões de portugueses. Destes, 50% enfrentam alterações significativas em suas vidas devido à dor. Mas o que exatamente caracteriza a dor crónica e como podemos melhorar a qualidade de vida daqueles que sofrem com dores persistentes?

 

O papel da dor

A dor desempenha um papel crucial em nosso organismo, servindo como um alerta. O nosso corpo deteta estímulos nocivos por meio de sensores especiais chamados nociceptores. Esses sensores são capazes de identificar estímulos térmicos (como queimaduras), mecânicos (como pancadas) ou químicos (como a queimadura causada por um produto químico).

Os estímulos captados pelos nociceptores são transformados em impulsos elétricos, que viajam pelos neurônios até alcançar o cérebro, é aí que essa informação se espalha por diversas áreas relacionadas à sensação, cognição, emoções e memória. A dor é o resultado desse processo complexo, sendo fundamental para nossa sobrevivência. Sem a capacidade de sentir dor, não conseguiríamos proteger adequadamente nosso corpo.

 

A natureza da dor crónica

A dor crónica funciona como um alarme persistente no nosso sistema. Imagine o alarme de uma casa que dispara aleatoriamente ou de forma contínua, mesmo quando não há perigo real. Nesse cenário, o alarme perde sua função original de nos alertar sobre riscos e perigos iminentes. O mesmo ocorre com a dor crónica: ela deixa de ser apenas um aviso de outra doença e passa a ser o próprio problema.

 

Em resumo

Dor Aguda: Surge em resposta a uma lesão tecidual e é limitada no tempo. Após a cura da lesão, a dor cessa. Exemplos incluem fraturas, queimaduras e dor pós-operatória.

Dor Crónica: Persiste além do período de reparação dos tecidos ou está associada a doenças crónicas. Exemplos incluem artrite, artrose, fibromialgia e dor lombar inespecífica.

O tratamento interdisciplinar desempenha um papel crucial na melhoria da qualidade de vida das pessoas que vivem com dor crónica. Com abordagens médicas, psicológicas e fisioterapêuticas, podemos ajudar a aliviar o sofrimento constante e restaurar o bem-estar.

Fonte: Sapo on-line

“Desporto: Histórica Filipa Martins supera lesões e aponta à final em Paris2024”


Por: SIF // AMG

Fonte: Lusa

A portuguesa Filipa Martins vai participar pela terceira vez nos Jogos Olímpicos quando competir em Paris2024, de olho na final do concurso completo na ginástica artística após batalhar contra lesões e por carreiras mais longas na modalidade.

Aos 28 anos, a ginasta natural do Porto vai igualar o ‘tri’ de Ana Rente, no trampolim, em Pequim2008, Londres2012 e Rio2016, e de Esbela da Fonseca, em Roma1960, Tóquio1964 e México1968.

A presença na capital francesa vai engrossar a lista de feitos de Martins, que tem um movimento homónimo inscrito no Código oficial, um marco inédito para Portugal na ginástica, depois de já ter sido a primeira numa final de Europeu, nas paralelas assimétricas, em 2021.

O 21.º lugar, e quarto entre atletas sem quota para Paris2024, nos Mundiais de 2023, na final de ‘all around’, garantiu o bilhete tão desejado num ciclo marcado por lesões e problemas físicos, que espera debelados.

“Temos tido várias competições a correr bastante bem. Estamos contentes com o percurso até aqui, estamos no bom caminho. Está perto, mas ainda falta um bocadinho. Estamos ansiosos, mas a viver um dia de cada vez e dar o nosso melhor”, explica, em entrevista à Lusa na Maia, onde treina.

O “nós” do seu discurso diz respeito ao trabalho que faz com a sua equipa, encimada pelo treinador José Ferreirinha, para se manter ao mais alto nível ao longo de “muitos anos de treino e de impactos”, algo que nesta idade “é sempre um bocadinho mais difícil, com demasiada sobrecarga”.

“Não tenho nenhuma lesão específica, [mas] tenho lesões crónicas de demasiado treino, demasiados anos, demasiados impactos. Tento gerir o treino por causa disso. Tenho já cinco cirurgias. Há dias que acordamos melhor e outros pior”, acrescenta.

A portuguesa congratula-se por ver a ginástica como uma modalidade de carreira “cada vez mais longa, com bastantes ginastas internacionais acima dos 25 anos”, com a portuguesa, aos 28, e a ‘superestrela’ Simone Biles, de 27, à cabeça.

“Quando eu entrei, acabava ali nos 18, 20 anos. Já se dizia que eram velhas. Temos a exceção da Oksana Chusovitina, com 49 anos ainda a praticar. Dizia ela que queria continuar até aos próximos Jogos… é sempre bom. A evolução dos aparelhos também nos permite sofrer menos um bocadinho com tantos impactos”, reflete.

Ainda assim, esperava ver agora “talvez a vida mais estruturada” e outro apoio, dadas as limitações de uma carreira no desporto em Portugal, estando também a cursar mestrado na área.

Essa longevidade, afirma, não a leva a pensar já em Los Angeles2028, porque “tem de ser um dia de cada vez”.

Mesmo que atletas queiram “sempre mais, e achem que ainda não fizeram o suficiente”, confessa já ver-se como parte da história do desporto português, até pelo efeito “muito gratificante” de ter crianças que a idolatram e seguem o seu trabalho.

O 17.º lugar histórico nas paralelas assimétricas em Tóquio2020, com um 43.º lugar no concurso completo (foi 37.ª no Rio2016), é uma fasquia para nova participação olímpica, embora esta esteja sempre condicionada à disponibilidade física.

“Depende sempre do meu corpo, hoje em dia é um bocadinho assim. Um dos principais objetivos é conseguir a final do ‘all around’, logo no dia 28 [segundo dia dos Jogos, e data da qualificação do concurso completo] saberemos. É o nosso principal objetivo. É também aproveitar mais uma experiência incrível, [porque] a última foi muito condicionada por causa da covid-19”, afirma.

Igualmente de regresso em Paris2024 está Simone Biles, a norte-americana que somou quatro ouros e um bronze no Rio2016 para, em Tóquio2020, citar problemas na saúde mental para ‘saltar’ algumas das provas, conseguindo uma prata e um bronze.

Depois de uma paragem, a norte-americana está de volta e é, desde logo, uma das principais atrações desta edição, um feito enaltecido, diz Filipa Martins, pela forma como o conseguiu.

“Só o facto de ter voltado para mais uns Jogos, querer fazer o que não conseguiu em Tóquio2020, mostra toda a garra e resiliência que tem, o querer ainda mais do que já fez. Sem ela, não será a mesma coisa, seja nuns Jogos como noutras competições”, elogia.

De resto, uma das principais referências desportivas nacionais congratula-se com o crescimento entre os mais novos numa das modalidades em que Portugal tem somado ‘pergaminhos’ nos Jogos Olímpicos, mas deixa um alerta para lacunas no apoio e nos recursos disponibilizados.

“Temos vindo a crescer cada vez mais nos escalões mais novos. Há um longo percurso pela frente, não só para atletas e treinadores, mas de coisas que precisamos para a nossa modalidade. Psicólogos, fisioterapeutas, médicos, que acompanhem os escalões mais novos, porque a nossa modalidade começa muito cedo”, aponta.

Entre as recomendações, fica uma geral, dado que “ainda falta toda uma estrutura por detrás que apoie desde mais cedo” os pequenos talentos, mesmo que tenham conseguido crescer sem isso.

sábado, 13 de julho de 2024

“Investigação: Cientistas da FCTUC registam a primeira medida de neutrinos com origem no interior do Sol com detetor de matéria escura”


O resultado histórico foi obtido pelo XENONnT, um sistema com um nível de sensibilidade na deteção de matéria escura sem precedentes.

 

A colaboração internacional denominada XENON, em que participam quatro cientistas do Laboratório de Instrumentação, Engenharia Biomédica e Física da Radiação (LIBPhys) da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC), resgistou a primeira medida alguma vez realizada de neutrinos com origem no interior do Sol por dispersão elástica coerente neutrino-núcleo (CEvNS, sigla em inglês).

Este resultado histórico foi obtido pelo XENONnT, um sistema com um nível de sensibilidade na deteção de matéria escura sem precedentes.

Há largas dezenas de anos que foi prevista a deteção de neutrinos solares, assim como a matéria escura, em detetores localizados no nosso planeta, desde que a sua sensibilidade e o tempo de medida fossem suficientes. Para detetar estes ínfimos sinais é necessário que o sistema de medida (neste caso o XENONnT) esteja na sua melhor performance e que sejam usadas técnicas de análise de dados altamente sofisticadas.

O XENONnT foi construído para a deteção direta de matéria escura. Está instalado no laboratório subterrâneo de Gran Sasso, em Itália, debaixo de 1300 metros de rocha, para reduzir os níveis de radiação cósmica drasticamente em relação aos que existem à superfície do nosso planeta. Os resultados anunciados resultam da análise dos dados adquiridos durante dois anos, de julho de 2021 a agosto de 2023.

Este sistema usa como alvo seis toneladas de xénon ultra-purificado. «Uma radiação ao passar pelo alvo pode gerar, em geral, sinais ínfimos de luz e carga. A esmagadora maioria destes sinais (mais de 99,99%) devem-se a radiações de origem conhecida, o que permite aos cientistas calcular com grande precisão o número de eventos esperados», diz José Matias-Lopes, investigador do LIBPhys da FCTUC e coordenador da equipa portuguesa.

Para medir eventos tão raros como os dos neutrinos e os da matéria escura o requisito mais importante é que o alvo tenha o nível mais baixo possível de radiação (radiação de fundo), para que possa distinguir o que se pretende medir, «é muito mais difícil do que encontrar uma agulha não num, mas em mil palheiros», ilustra José Matias Lopes.

Para conseguir alcançar tal meta tecnicamente tão exigente, todos os tipos de fontes de radiação contam, a presente no próprio alvo de xénon e a que provém dos materiais de que é construído o XENONnT. «Para lidar com a mais difícil de todas, a primeira, a colaboração XENON conseguiu reduzir o nível de contaminação com o elemento radão para níveis sem precedentes graças a uma coluna de destilação com 5,5 metros de altura, especialmente desenvolvida para o efeito por esta colaboração», explica o investigador, acrescentando que «todos os materiais usados no XENONnT foram cuidadosamente selecionados (até o mais pequeno dos parafusos) para terem o mais baixo nível possível de radiação».

O alvo do XENONnT é o local do planeta Terra com a menor radiação de fundo de toda a história da Humanidade, permitindo levar a cabo estudos de um grande número de fenómenos particularmente raros tais como a interação de axiões solares, de neutrinos com momento magnético anómalo, de partículas análogas aos axiões, etc.

Embora prevista desde 1974, a CEvNS dos neutrinos solares foi um enorme desafio de deteção não só pela extrema dificuldade em registar este tipo de partículas, mas também pelas muito baixas energias depositadas aquando a sua interação num detetor. Só em 2017 foi possível fazer a primeira medida deste tipo de interação, embora com neutrinos de energia muito mais alta provenientes de um acelerador em Oak Ridge (Tennessee, EUA).

Agora, e pela primeira vez, o XENONnT consegue medir os neutrinos solares pela CEvNS num alvo de xénon, juntando-se à lista de famosas experiências concebidas expressamente para o registo de neutrinos solares (por outros canais de interação) e que, notavelmente, usam todas alvos com massas dezenas ou centenas de vezes mais massa superiores à do XENONnT.

O ultrabaixo nível de radiação de fundo do XENONnT aliado à sua capacidade para detetar energias muito baixas permitiu este feito científico. A medida foi obtida com 2,72 desvios padrões de confiança o que significa que há uma certeza de 99,65% no sinal registado ser de neutrinos solares resultantes de reações nucleares de Boro-8. É a primeira vez que se mede deste tipo de neutrinos provenientes de uma fonte extraterrestre.

Este resultado obtido pelo XENONnT abre ainda uma nova era na senda da matéria escura ao iniciar a deteção do denominado nevoeiro de neutrinos, onde estes coexistem com a matéria escura, que por serem quase indistinguíveis dificulta a deteção deste último tipo de partículas.

Fonte: Universidade Coimbra