Por: José Morais
Durante muitos anos, receber o
diagnóstico de uma doença hematológica significava, quase automaticamente,
ouvir a mesma recomendação: repousar, evitar esforços e reduzir ao máximo a
atividade física. Embora existam momentos em que o descanso é indispensável,
transformar essa orientação numa regra permanente pode trazer consequências tão
preocupantes quanto aquelas que se pretende evitar.
Hoje, a realidade é diferente.
A evidência mostra que o exercício físico adaptado à condição clínica pode
assumir um papel relevante no percurso de recuperação de pessoas submetidas a
tratamentos hemato-oncológicos. Não substitui medicamentos, quimioterapia ou
outras intervenções terapêuticas, mas pode ser um complemento decisivo para
melhorar a funcionalidade, a independência e o bem-estar.
Os efeitos da doença e dos
tratamentos raramente desaparecem quando termina um internamento ou uma fase
terapêutica. Muitos doentes continuam a enfrentar fadiga persistente,
diminuição da força muscular, anemia, alterações do equilíbrio, neuropatias e
dores que condicionam as atividades mais básicas do quotidiano. Levantar-se da
cama, tomar banho ou subir alguns degraus pode transformar-se num desafio
diário.
É precisamente nesse contexto
que a inatividade se torna um adversário silencioso. Quanto menos a pessoa se
movimenta, maior tende a ser a perda de capacidade física. Essa diminuição gera
mais dificuldade nas tarefas diárias, aumenta o cansaço e contribui para um
ciclo que fragiliza ainda mais o organismo.
Perante esta realidade, a
pergunta não deveria ser se o doente está autorizado a fazer exercício. A
verdadeira questão é identificar qual o tipo de movimento mais adequado, seguro
e benéfico para cada pessoa, tendo em conta o momento da doença, os tratamentos
em curso e os seus objetivos funcionais.
Tal como acontece com qualquer
intervenção clínica, não existem soluções universais. Cada plano de exercício
deve ser construído de forma individualizada, respeitando as limitações,
capacidades e evolução do doente. Em determinados períodos, pequenas sessões
com pausas frequentes podem ser suficientes. Noutras fases, será possível
aumentar progressivamente a intensidade e a duração do treino.
Neste processo, o fisiologista
do exercício assume um papel cada vez mais relevante. A sua intervenção vai
além da simples recomendação para “ser mais ativo”. Envolve avaliar a condição
física, detetar fatores de risco, definir objetivos concretos, selecionar
exercícios apropriados e monitorizar a evolução de forma contínua. Trata-se de
acrescentar conhecimento especializado a equipas multidisciplinares que
trabalham em conjunto para promover uma recuperação mais completa.
Contudo, persistem desafios
importantes relacionados com o acesso à reabilitação. Nem todos os doentes
vivem perto de centros especializados, possuem facilidade de deslocação ou
dispõem dos recursos necessários para frequentar programas presenciais. É por
isso que as soluções digitais e comunitárias têm vindo a ganhar importância
crescente.
Projetos desenvolvidos em
Portugal demonstram que a combinação de exercício supervisionado à distância
com apoio psicológico pode alcançar elevados níveis de participação e adesão.
Estas iniciativas mostram que é possível aproximar os cuidados de saúde das
pessoas, independentemente da sua localização ou condição económica.
A tecnologia, por si só, não
substitui profissionais de saúde nem equipas clínicas. Contudo, pode ser uma
ferramenta poderosa para eliminar barreiras e levar acompanhamento
especializado a quem mais dele necessita.
Talvez tenha chegado o momento
de deixar de encarar o exercício físico como uma recomendação secundária. Nas
doenças malignas do sangue, o movimento pode representar muito mais do que
atividade física. Pode significar recuperação, autonomia, confiança e qualidade
de vida.
Porque tratar a doença é
fundamental. Mas ajudar o doente a recuperar a sua vida depois dela é
igualmente uma prioridade. E essa recuperação passa, inevitavelmente, por
colocar o movimento no centro dos cuidados.




