domingo, 21 de junho de 2026

“Mobilidade ativa: o remédio urbano que as cidades continuam a ignorar”


A mobilidade ativa caminhar, pedalar, usar trotinetes ou bicicletas deixou de ser apenas uma tendência urbana. Hoje, é um dos instrumentos mais eficazes para aliviar sistemas de saúde pressionados, reduzir emissões e devolver qualidade de vida às cidades. Apesar disso, continua a ser tratada como um extra, e não como infraestrutura essencial.

 

Uma questão de saúde pública, não de estilo de vida

 

A Organização Mundial da Saúde estima que a inatividade física provoque um milhão de mortes por ano na Europa, contribuindo para doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, vários tipos de cancro e problemas de saúde mental. Se nada mudar, o impacto financeiro para os sistemas públicos de saúde poderá ultrapassar 275 mil milhões de euros até ao final da década.

Portugal surge num lugar desconfortável neste cenário: segundo a OCDE e a OMS, é o país da União Europeia com menores níveis de atividade física entre adultos, e a Direção-Geral da Saúde aponta que 14% das mortes anuais estão associadas ao sedentarismo.

Estes números não falam de ginásios. Falam de cidades desenhadas para carros, onde mover-se ativamente é difícil, inseguro ou simplesmente impraticável.

 

Infraestrutura que muda comportamentos

 

A escolha entre carro e mobilidade ativa não é apenas individual é estrutural. Quando existem ciclovias protegidas, passeios amplos, ligações seguras ao transporte público e políticas de estacionamento inteligentes, as pessoas mudam de hábitos. Quando não existem, o carro vence por defeito.

E o preço dessa escolha recai sobre todos: mais internamentos, mais medicação crónica, mais pressão sobre um sistema de saúde já fragilizado.

Estudos publicados na BMJ já em 2017 mostravam que deslocações pendulares de bicicleta reduzem o risco de doenças cardiovasculares e cancro. Caminhar regularmente também diminui o risco de doenças cardíacas. Quase uma década depois, a evidência acumulou-se, mas a transformação urbana não acompanhou.

 

Pequenos trajetos, grandes impactos

 

As trotinetes e bicicletas elétricas funcionam como portas de entrada para a mobilidade ativa. Permitem ligar a última milha entre casa e transportes públicos, encurtar percursos urbanos e substituir viagens curtas de carro aquelas que mais poluem e menos sentido fazem.

Segundo a European Cyclists’ Federation, trabalhadores que se deslocam ativamente faltam menos 1,3 dias por ano, o que representa 5 mil milhões de euros de poupança na UE. A prevenção de doenças cardiovasculares e diabetes soma mais 21 mil milhões de euros em benefícios.

Se estes números não justificam investimento em infraestrutura, o que justificará?

 

O que falta às cidades

 

Tratar a mobilidade ativa como infraestrutura implica:

Ciclovias protegidas não apenas linhas pintadas no asfalto.

Polos de mobilidade integrada onde veículos partilhados se articulam com autocarros, metro e comboios.

Políticas de estacionamento inteligentes que tornem a opção ativa a mais fácil.

Indicadores de saúde urbana para medir sucesso além do fluxo automóvel.

O setor privado pode ajudar, mas a escala do desafio exige ação firme de municípios e governo. A infraestrutura para uma população mais saudável já existe parcialmente. Falta ambição para concluí-la.

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