domingo, 10 de maio de 2026

“Proibir Conduzir aos 75 Anos: Segurança Rodoviária ou Discriminação Etária?”


Por: José Morais

A discussão sobre a eventual proibição de conduzir a partir dos 75 anos em Portugal voltou a ganhar força. À primeira vista, a ideia parece simples: mais idade significa mais limitações físicas e cognitivas, logo maior risco na estrada. Mas basta pensar um pouco mais para perceber que o tema é bem mais complexo do que aparenta.

 

A proposta que divide opiniões

 

A medida, apresentada sob o argumento da segurança pública, pretende impedir automaticamente a renovação da carta de condução a partir dos 75 anos. Os defensores apontam para episódios de idosos em contramão, acidentes evitáveis e sinais de incapacidade que passam despercebidos nos atuais exames médicos. É inegável que o envelhecimento traz alterações na visão, nos reflexos e na mobilidade. Há, de facto, pessoas que já não deveriam estar ao volante.

 

Mas a pergunta essencial permanece: faz sentido tratar todos os cidadãos com mais de 75 anos como incapazes de conduzir?

 

A idade não é um diagnóstico

 

A realidade mostra que não. Há portugueses de 75, 80 ou até 85 anos com uma condição física e cognitiva superior à de muitos condutores mais jovens. Estudos europeus indicam que os acidentes provocados por condutores idosos representam uma percentagem reduzida do total, sendo frequentemente menos graves do que os causados por condutores entre os 18 e os 35 anos um grupo estatisticamente mais propenso a excesso de velocidade, distrações e uso do telemóvel.

A idade, por si só, não é um indicador fiável de incapacidade. É apenas um número.

 

O impacto social de uma proibição cega

 

Para milhares de idosos, sobretudo fora dos grandes centros urbanos, o automóvel é mais do que um meio de transporte: é a sua ligação ao mundo. É a forma de ir ao centro de saúde, ao supermercado, à farmácia ou simplesmente ao café onde mantêm a sua rede social.

Retirar a carta de forma automática significaria, na prática, impor isolamento, dependência e perda de autonomia. E isso tem consequências reais: maior risco de depressão, deterioração cognitiva acelerada e quebra na qualidade de vida. A medida, pensada para proteger, poderia acabar por prejudicar.

 

O que fazem outros países?

 

A maioria dos países europeus não impõe uma idade-limite para conduzir. Em vez disso, reforçam avaliações médicas periódicas e testes de aptidão mais rigorosos. Espanha, França, Alemanha e Reino Unido seguem este modelo: mais controlo, mais exigência, mas sem discriminação etária.

Portugal, pelo contrário, continua a depender de atestados médicos muitas vezes formais e pouco rigorosos.

 

O verdadeiro problema pode estar noutro lado

 

A discussão talvez devesse centrar-se não na idade, mas na qualidade das avaliações. Testes cognitivos mais frequentes, exames visuais obrigatórios, avaliações práticas quando necessário e um sistema que identifique sinais de risco sem estigmatizar todos os idosos.

A solução não passa por retirar direitos de forma matemática, mas por garantir que quem conduz seja aos 40 ou aos 80 está realmente apto.

 

Conclusão

 

A proposta de proibir a condução a partir dos 75 anos nasce de uma preocupação legítima: a segurança rodoviária. Mas uma preocupação legítima não transforma automaticamente uma má solução numa boa política pública.

Portugal precisa de mais rigor na avaliação dos condutores em idade avançada. O que não precisa é de uma proibição total baseada apenas na data de nascimento. A segurança na estrada constróise com responsabilidade, não com generalizações.

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