domingo, 23 de novembro de 2025

“Quando o mundo gira sem parar: as várias faces da vertigem”


Por: Ângela Reis Rego (Coordenadora da Unidade de Vertigem do Instituto CUF Porto)

A vertigem não é um diagnóstico. É um sintoma que merece investigação cuidadosa, pode afetar 1 em cada 5 adultos e, em pessoas acima dos 75 anos, sobe para cerca de 30%. Se o mundo à sua volta parece girar, não ignore.

De repente, o mundo começa a girar. Quem já passou por uma crise de vertigem sabe que não se trata de uma simples tontura ou de um ligeiro desequilíbrio. É uma sensação intensa, muitas vezes acompanhada de náuseas ou vómitos e incapacitante: parece que tudo roda à sua volta ou que o próprio corpo se move – embora, na verdade, esteja quieto.

Apesar de frequente, a vertigem apresenta alguns desafios. Estima-se que possa afetar até 1 em cada 5 adultos e, em pessoas acima dos 75 anos, sobe para cerca de 30%. Ainda assim, muitos doentes chegam à consulta de Otoneurologia – área da Otorrinolaringologia dedicada ao ouvido interno – apenas com a vaga designação de “síndrome vertiginoso”, expressão que, na prática, não é muito esclarecedora.

Mas, afinal, o que causa a vertigem? Esse é o verdadeiro desafio. A origem pode estar no ouvido interno ou no sistema nervoso central. A doença mais comum do ouvido interno que causa este sintoma é a vertigem paroxística posicional benigna (VPPB), vulgarmente conhecida como “a doença dos cristais”.

Esta patologia manifesta-se, sobretudo, em mulheres após os 45 anos e estudos recentes apontam como possíveis fatores de risco o défice de vitamina D e a osteoporose. Com a VPPB, o doente sente o mundo rodar ao mover a cabeça e, assim, tornam-se particularmente desafiantes tarefas simples como deitar e levantar da cama, apertar os sapatos, tomar banho ou estender roupa. Felizmente, apesar de incapacitante, a VPPB tem uma solução relativamente simples: manobras específicas em que se reposicionam os cristais. Na VPPB, importa referir que é muito raro ser necessário o uso de medicamentos.

Outra patologia que afeta o ouvido interno é a Doença de Ménière, mais rara, mas muito marcante. Causa crises de vertigem acompanhadas de perda de audição, zumbido e sensação de ouvido cheio. Esta é uma doença que afeta maioritariamente mulheres de meia-idade, sendo que, em alguns casos, há história de vários membros da mesma família afetados. O tratamento médico é individualizado e, em casos graves, pode incluir injeções de fármacos no ouvido ou mesmo cirurgia.

A “neuronite vestibular” é também uma condição que afeta o ouvido interno, surgindo, habitualmente, após uma gripe ou constipação. O doente tem um episódio súbito de vertigem intensa, com náuseas e vómitos que podem durar alguns dias. Depois, pode persistir desequilíbrio, sendo útil a reabilitação vestibular – tratamento personalizado prescrito por otorrinolaringologistas e realizado por audiologistas e/ou fisioterapeutas.

Mais rara, mas grave, é a labirintite, que além da vertigem causa perda de audição e resulta de infeções que atingem o ouvido interno e o sistema nervoso central. Requer tratamento em regime de internamento na maioria das vezes e, em alguns casos, cirurgia.

Nem sempre, porém, a vertigem vem do ouvido interno. Pode estar associada a outros problemas médicos, como enxaqueca, acidentes vasculares cerebrais (AVC) ou, em casos excecionais, a tumores do sistema nervoso central.

Nos idosos, ou em quem tem problemas de mobilidade, cardiovasculares ou neurológicos, a vertigem aumenta muito o risco de quedas e de fraturas graves. Daí a importância de procurar ajuda cedo e de recorrer a uma abordagem multidisciplinar que envolva profissionais dedicados a esta área.

Otorrinolaringologistas e neurologistas são os profissionais indicados para uma primeira abordagem da vertigem, podendo ser necessária intervenção de outras especialidades, não só médicas, como técnicas, como, por exemplo, a Audiologia e a Fisioterapia, particularmente no que diz respeito à reabilitação em casos em que o doente apresente sintomas mais crónicos, sejam de vertigem, tontura ou desequilíbrio.

Em resumo, a vertigem não é um diagnóstico. É um sintoma que merece investigação cuidadosa. Se o mundo à sua volta parece girar, não ignore e procure avaliação médica.

Fonte: Sapo on-line Saúde

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