sábado, 14 de fevereiro de 2026

“Da crise climática à crise da saúde pública: Portugal está preparado para a próxima emergência?”


Por: José Morais

As cheias que arrastam carros, os ventos que destroem infraestruturas, bairros submersos em poucas horas e serviços essenciais em colapso deixaram, nas últimas semanas, um retrato perturbador em Portugal. Não se trata de um acaso meteorológico nem de um episódio excecional. É o sinal claro de que a emergência climática já se transformou, silenciosamente, numa emergência sanitária e continuamos a responder como se fosse surpresa.

Não podemos impedir todas as tempestades, secas ou ondas de calor. Mas podemos e devemos preparar-nos para os seus efeitos. O problema é que persistimos numa leitura curta da realidade, tratando fenómenos extremos como incidentes isolados, quando eles fazem parte de uma mudança estrutural do clima, do território e da saúde das populações.

Hoje, falar de saúde pública sem falar de clima é ignorar uma parte essencial do problema. As alterações climáticas já não afetam apenas ecossistemas ou economias locais: estão a redesenhar o mapa das doenças. O aumento da temperatura média, a instabilidade dos regimes de chuva, a degradação ambiental e a pressão sobre habitats naturais criam condições ideais para a circulação de agentes patogénicos e para a expansão de vetores transmissores de doença para regiões onde antes não existiam.

Nada disto acontece por acaso. As chamadas doenças emergentes e reemergentes são o resultado direto de desequilíbrios ambientais profundos. Invernos mais amenos prolongam a atividade de mosquitos e outros vetores, alargando os períodos de risco. Espécies adaptam-se a novos territórios, barreiras naturais desaparecem e a proximidade entre humanos, animais e patógenos aumenta. O verdadeiro perigo não está apenas na presença dessas doenças, mas na insistência em encará-las como eventos pontuais, reagindo apenas quando o surto já está instalado.

É aqui que o sistema revela uma das suas maiores fragilidades. As crises sanitárias continuam a ser tratadas como episódios desconectados do contexto ambiental que lhes dá origem. A resposta surge tarde, quando os hospitais estão sob pressão, os serviços de saúde sobrecarregados e as comunidades já afetadas. Esta abordagem reativa, fragmentada entre setores, normaliza a ideia de que a crise é inevitável quando, na verdade, muitos dos seus impactos são previsíveis.

Neste contexto, o conceito de “Uma saúde” deixa de ser um jargão académico e impõe-se como uma ferramenta prática de antecipação. Reconhecer que a saúde humana depende da saúde animal e do equilíbrio ambiental permite identificar sinais precoces, compreender padrões e agir antes da emergência. É esta leitura integrada que permite passar da reação para a prevenção, do improviso para a estratégia.

As recentes tempestades e inundações mostram que não enfrentamos apenas um desafio climático. Estamos perante um teste à forma como organizamos o território, protegemos os ecossistemas e articulamos políticas públicas. A separação entre saúde humana, saúde animal, ambiente, planeamento urbano e proteção civil fragiliza qualquer resposta. O conhecimento existe. O que falta é ligar os pontos e construir pontes entre áreas que continuam a funcionar em silos.

Repensar políticas públicas à luz desta realidade exige ir além da lógica da urgência e da resposta clínica. Implica rever modelos de urbanização, gestão da água, ordenamento do território, vigilância ambiental e educação para a saúde. Exige colaboração real entre governos, autarquias, comunidade científica, setor privado e sociedade civil. Prevenir custa menos financeiramente e socialmente do que reparar danos.

Neste novo cenário, a prevenção deixa de ser um ideal abstrato para se tornar uma necessidade prática. Não podemos controlar todos os fenómenos extremos, mas podemos reduzir drasticamente os seus impactos se aceitarmos que a saúde é um ecossistema interdependente, sensível às decisões que tomamos hoje.

O futuro da saúde não se decide apenas nos hospitais ou nos laboratórios. Decide-se na forma como cuidamos do ambiente, protegemos os animais, planeamos as cidades e antecipamos riscos conhecidos. Continuar a reagir a crises anunciadas é uma escolha política e coletiva. Antecipá-las, com visão integrada e estratégica, é o desafio que já não podemos adiar.

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