Por: Professor Miguel Coelho, médico neurologista no Hospital de Santa Maria
A distonia é uma patologia com
origem no sistema nervoso que afeta mais de 1500 portugueses. No entanto, este
número poderá não corresponder à realidade, uma vez que este é um problema de
saúde provavelmente subdiagnosticado. Isto acontece porque esta é ainda uma
doença pouco conhecida e cujos sintomas são frequentemente desvalorizados.
Embora não exista cura, há tratamento e importa frisar a importância do
diagnóstico precoce.
Antes de mais, importa saber
que doença é esta que afeta as atividades de vida diária, como dormir, comer,
caminhar e até falar, diminuindo consideravelmente a qualidade de vida dos
doentes. A distonia caracteriza-se pela existência de contrações musculares
involuntárias, podendo originar movimentos repetitivos ou levar a posições
anómalas e, por vezes, dolorosas, de determinadas partes do corpo ou até em
todo o corpo.
Existem
várias causas de distonia:
Distonia idiopática: quando
não se identifica uma causa subjacente para a distonia. São os casos mais
frequentes.
Distonia adquirida: quando
esta é um efeito de outra doença, como a doença de Parkinson, um AVC, uma
infeção, uma paralisia cerebral ou a certos medicamentos.
É ainda possível classificar a
distonia conforme a parte do corpo afetada:
Distonia focal: afeta apenas
uma área do corpo, como as pálpebras ou o pescoço, sendo mais comum em adultos;
Distonia segmentar: afeta duas
ou mais áreas próximas do corpo;
Distonia generalizada: afeta o
tronco e mais duas áreas do corpo, sendo frequente nestes casos envolver os
membros inferiores; mais comum em crianças.
Esta é uma doença tratável,
ainda que sem cura. Como tal, existem tratamentos eficazes que melhoram
significativamente a qualidade de vida dos doentes:
Tratamento médico: consiste na
toma de medicamentos por via oral ou pela aplicação intramuscular de toxina
botulínica. Este último representa o tratamento mais eficaz para as distonias
focais e o seu efeito dura entre 12 e 16 semanas, requerendo uma aplicação a
cada 3 ou 4 meses;
Tratamento cirúrgico: consiste
na estimulação cerebral profunda, que é realizada através da colocação de
elétrodos nos gânglios da base. É realizado apenas em casos graves de distonia
e que não respondam de forma satisfatória aos tratamentos farmacológicos,
melhorando substancialmente a distonia, com repercussão na melhoria da
qualidade de vida.
Para que seja possível avançar
com o tratamento adequado, o diagnóstico precoce é crucial. Quanto mais cedo
for realizado, maior será a probabilidade de melhorar a qualidade de vida dos
doentes. No entanto, o subdiagnóstico ou diagnóstico tardio da distonia
acontece, muitas vezes, pela desvalorização dos sintomas por parte do doente ou
pelo não reconhecimento dos mesmos pelo médico.
O diagnóstico da distonia é
clínico, ou seja, é através da observação dos sintomas que o médico o faz,
sendo a Neurologia a especialidade mais habilitada para diagnosticar esta
doença. Muitas das vezes, são requisitados exames, mas apenas para se excluírem
causas subjacentes que podem estar associadas à distonia, uma vez que não
existem exames complementares de diagnóstico que especifiquem que o doente tem
distonia.
No entanto, uma vez que nos
adultos os primeiros sintomas surgem em determinados segmentos corporais, como
os olhos, os doentes recorrem muitas das vezes a especialidades centradas no
local dos espasmos, como Oftalmologia. Isto acaba por ser um dos fatores que
contribuem para atrasar ou dificultar o diagnóstico correto, uma vez que os
médicos de outras áreas que não a neurologia estão menos familiarizados com
esta patologia.
Devido a isto, importa, além
da sensibilização da população, promover o conhecimento médico relativamente a
esta patologia ainda pouco conhecida.
Um artigo de opinião escrito
pelo Professor Miguel Coelho, médico neurologista no Hospital de Santa Maria.
Fonte: Sapo on-line saúde
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