sábado, 4 de abril de 2026

“Menopausa altera tecido mamário e aumenta risco de cancro, revela estudo internacional”


Por: José Morais

Um novo estudo científico lança luz sobre um fenómeno há muito observado, mas ainda pouco compreendido: a forte relação entre o envelhecimento, a menopausa e o aumento do risco de cancro da mama. Segundo a investigação, publicada na revista Nature Aging, cerca de 80% dos diagnósticos de cancro da mama ocorrem em mulheres com mais de 50 anos, idade em que as transformações hormonais e estruturais do tecido mamário criam condições mais favoráveis ao desenvolvimento de tumores.

 

Um mapa celular sem precedentes

 

A pesquisa, conduzida por equipas do Canadá e do Reino Unido, produziu o mais detalhado “atlas” das alterações que ocorrem nas cerca de três milhões de células que compõem o tecido mamário. O trabalho analisou mamografias e biópsias de mais de 500 mulheres, entre os 15 e os 86 anos, permitindo observar como o tecido se transforma ao longo da vida.

Os cientistas verificaram que, com o avançar da idade, todas as populações celulares diminuem em número e se dividem menos, o que altera profundamente a arquitetura da mama. Os lóbulos estruturas responsáveis pela produção de leite encolhem ou desaparecem, enquanto a gordura aumenta e os vasos sanguíneos se tornam menos abundantes. Estas mudanças criam um microambiente mais permissivo à fixação e multiplicação de células cancerígenas.

 

O impacto decisivo da menopausa

 

A queda abrupta dos níveis de estrogénio durante a menopausa surge como um dos fatores mais determinantes. Segundo Pulkit Gupta, investigador da Universidade de Cambridge, as alterações mais marcantes no tecido mamário ocorrem precisamente nesta fase, apesar de algumas modificações já serem visíveis em idades mais jovens, sobretudo após gravidez e parto.

Além das mudanças estruturais, o estudo destaca uma transformação profunda no sistema imunitário local. Mamas jovens apresentam maior presença de células B e T ativas, essenciais para identificar e destruir células anómalas. Com o envelhecimento, estas células diminuem e são substituídas por outras associadas a um ambiente mais inflamatório e menos eficaz na vigilância contra mutações.

 

Uma explicação para diferenças entre tumores jovens e tardios

 

Samuel Aparicio, da Universidade da Colúmbia Britânica, sublinha que a grande surpresa foi constatar que todas as células do tecido mamário e não apenas as produtoras de leite são afetadas pelas alterações hormonais e pela idade. Esta descoberta ajuda a explicar por que razão tumores em mulheres jovens tendem a ser biologicamente distintos dos que surgem após a menopausa.

 

Um problema global de saúde pública

 

O cancro da mama continua a ser o tipo de cancro mais diagnosticado entre mulheres em todo o mundo, representando um em cada quatro novos casos anuais. A compreensão detalhada de como o tecido mamário envelhece, pode abrir caminho a novas estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e terapias mais personalizadas.

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