Por: José Morais
A doença celíaca é uma
patologia crónica autoimune que afeta o sistema digestivo e obriga a uma
restrição alimentar rigorosa: a eliminação total do glúten da dieta. Apesar de
ser relativamente comum, continua frequentemente por diagnosticar, o que pode atrasar
o tratamento e comprometer a qualidade de vida dos doentes.
Segundo especialistas, a única
forma eficaz de controlar a doença é através de uma dieta estritamente isenta
de glúten proteína presente em cereais como o trigo, o centeio e a cevada.
Quando ingerida por pessoas celíacas, desencadeia uma reação inflamatória que
danifica a mucosa do intestino delgado, dificultando a digestão e a absorção de
nutrientes essenciais.
O que
acontece no organismo
Na doença celíaca, o sistema
imunitário reage de forma inadequada ao glúten, mais especificamente à
gliadina, uma das suas frações proteicas. Esta resposta inflamatória provoca
alterações nas vilosidades intestinais estruturas microscópicas responsáveis pela
absorção de nutrientes levando à chamada má absorção intestinal.
Como consequência, podem
surgir défices nutricionais importantes, mesmo em pessoas com uma alimentação
aparentemente equilibrada.
Sintomas:
nem sempre são apenas digestivos
Os sinais da doença variam
consoante a idade e a gravidade do quadro clínico. Nas crianças, os sintomas
digestivos são geralmente mais evidentes, enquanto nos adultos podem surgir
manifestações menos específicas.
Sintomas
digestivos mais comuns
Diarreia persistente,
frequentemente com fezes volumosas e malcheirosas
Distensão abdominal e excesso
de gases
Dor abdominal recorrente
Perda de peso ou dificuldade
em ganhar peso
Atraso de crescimento nas
crianças
Sintomas extraintestinais
A doença
pode também manifestar-se fora do aparelho digestivo, incluindo:
Anemia por défice de ferro ou
ácido fólico
Fadiga e fraqueza persistentes
Osteopenia ou osteoporose
Problemas neurológicos como
formigueiros ou falta de força
Lesões cutâneas com comichão,
conhecidas como dermatite herpetiforme
Alterações menstruais ou
infertilidade
Irritabilidade ou alterações
de humor
Em alguns casos, a doença pode
ser praticamente assintomática, sendo descoberta apenas através de exames
laboratoriais.
Uma
doença frequentemente silenciosa
A doença celíaca pode
apresentar diferentes formas clínicas. Quando os sintomas são discretos ou
atípicos, fala-se em doença celíaca atípica. Já nos casos em que não existem
sintomas, mas os exames confirmam a presença da doença, utiliza-se o termo
doença celíaca assintomática.
Este caráter silencioso
contribui para o subdiagnóstico. Estima-se que muitos doentes convivam durante
anos com sintomas inespecíficos sem saber a sua causa.
Quem tem
maior risco
A componente genética tem um
papel importante. Familiares de primeiro grau de pessoas celíacas têm um risco
significativamente maior de desenvolver a doença cerca de 10%.
Além disso, a doença é mais
frequente em pessoas com determinadas condições médicas, como:
Diabetes tipo 1
Tiroidite autoimune
Síndrome de Down
Défice de imunoglobulina - A
Nestes grupos, o rastreio é
frequentemente recomendado.
Quantas pessoas são afetadas
Estudos indicam que cerca de
1% da população portuguesa poderá ter doença celíaca. No entanto, especialistas
acreditam que uma grande parte dos casos continua por diagnosticar, podendo
existir entre 85 mil e 100 mil pessoas sem diagnóstico em Portugal.
Curiosamente, a doença não
surge apenas na infância. Atualmente, muitos diagnósticos são feitos em adultos
e cerca de um quarto dos novos casos ocorre após os 60 anos.
Como é
feito o diagnóstico
O
diagnóstico baseia-se em três elementos principais:
História clínica e avaliação
dos sintomas
Análises ao sangue, que
procuram anticorpos específicos associados à doença
Biópsia do intestino delgado,
realizada através de endoscopia, para avaliar possíveis lesões nas vilosidades
intestinais
É importante que os exames
sejam feitos enquanto o doente ainda consome glúten, uma vez que retirar o
glúten da dieta antes do diagnóstico pode alterar os resultados.
Tratamento:
eliminar o glúten para toda a vida
Não existe cura para a doença
celíaca. O tratamento consiste numa dieta estritamente sem glúten, que deve ser
mantida ao longo de toda a vida.
Alimentos com menos de 20
partes por milhão de glúten podem ser rotulados como “sem glúten”, de acordo
com normas internacionais.
Alimentos
proibidos
pão, bolos e bolachas
tradicionais, massas e pizzas, alimentos panados, cerveja e alguns produtos
processados
Alimentos
naturalmente sem glúten
Arroz, milho, batata, quinoa, fruta
e legumes, carne, peixe e ovos
Mesmo assim, muitos alimentos
processados podem conter glúten escondido, tornando essencial a leitura
cuidadosa dos rótulos.
Qualidade
de vida e desafios
A adoção de uma dieta sem
glúten costuma trazer melhorias rápidas, muitas vezes em apenas uma ou duas
semanas. Contudo, manter esse regime pode ser desafiante, não só pela restrição
alimentar, mas também pelo custo mais elevado de muitos produtos específicos.
Em alguns casos cerca de 20%
dos doentes podem persistir sintomas apesar da dieta, exigindo acompanhamento
médico e, ocasionalmente, terapêutica medicamentosa.
Perspetivas
futuras
A investigação científica
procura novas estratégias terapêuticas, incluindo enzimas que ajudem a digerir
o glúten, variedades de trigo modificadas e até vacinas capazes de induzir
tolerância imunológica. Embora promissoras, estas abordagens ainda se encontram
em fase de estudo.
Porque é
importante diagnosticar cedo
Quando tratada corretamente, a
doença celíaca tem um prognóstico muito favorável. No entanto, se permanecer
sem tratamento, pode aumentar o risco de complicações, como problemas ósseos,
infertilidade ou certos tipos de cancro do aparelho digestivo.
Por isso, perante sintomas
persistentes ou pertencendo a grupos de risco, os especialistas recomendam
procurar avaliação médica. O diagnóstico precoce continua a ser a melhor forma
de evitar complicações e garantir qualidade de vida aos doentes.

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