Por: Jorge Andrade
A obesidade está a tornar-se
um dos principais motores silenciosos das doenças digestivas em Portugal. No
Mês da Saúde Digestiva, a Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia alerta para
uma ligação ainda pouco reconhecida, mas com consequências graves. Cancros,
“fígado gordo” e refluxo são apenas algumas das ameaças associadas ao excesso
de peso. Questões aqui tratados em entrevista a Joana Nunes, Gastrenterologista
e Secretária-Geral da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia.
Estima-se que cerca de um
terço da população nacional seja afetada por patologias do foro digestivo,
muitas das quais têm na obesidade um fator de risco determinante e muitas vezes
subestimado. Da doença do refluxo gastroesofágico ao fígado gordo, passando por
vários tipos de cancro digestivo, as consequências do excesso de peso vão muito
além das doenças mais faladas como a diabetes ou as cardiovasculares.
Para aprofundar esta ligação
entre o peso corporal e a saúde do sistema digestivo, estivemos à conversa com
Joana Nunes, Gastrenterologista e Secretária-Geral da Sociedade Portuguesa de
Gastrenterologia (SPG). Mote para percebermos de que forma a obesidade
interfere com o funcionamento do sistema digestivo, quais as doenças mais
negligenciadas, e que mudanças são necessárias do ponto de vista clínico,
social e político para travar esta pandemia silenciosa.
O excesso de peso e a
obesidade são amiúde associados ao surgimento, entre outras, de doenças
cardiovasculares, hipertensão arterial, diabetes mellitus. O que explica a
relativa invisibilidade da sua ligação às doenças do aparelho digestivo, apesar
da crescente evidência científica?
De facto, a obesidade tem sido
muito associada a doenças como o enfarte do miocárdio, a hipertensão ou a
diabetes. Em contraste, a sua relação com as doenças digestivas tem sido menos
divulgada, talvez por serem menos visíveis ou por se manifestarem de forma mais
insidiosa. De qualquer modo, está bem demonstrado que a obesidade é um dos
principais fatores de risco de doenças como refluxo gastroesofágico, esteatose
hepática (“fígado gordo”) e até de alguns cancros, como o cancro do cólon e
reto e do pâncreas.
De que forma o excesso de peso
interfere no funcionamento do sistema digestivo, ao ponto de contribuir para
doenças como o refluxo, o fígado gordo ou até certos tipos de cancro?
Existem vários mecanismos que
ajudam a explicar esta interação entre excesso de peso/obesidade e as doenças
do sistema digestivo.
Por um lado, o efeito da
acumulação de gordura, especialmente a gordura abdominal, que aumenta a pressão
intra-abdominal e está associada a condições como o refluxo gastroesofágico, em
que o ácido que é produzido no estômago reflui para o esófago. Estudos
demonstraram que a perda de peso (5 a 10%) tem um efeito na melhoria dos
sintomas de refluxo. Outro mecanismo está relacionado com a acumulação de
gordura no fígado (esteatose hepática) que pode conduzir a inflamação, fibrose
e até cirrose hepática. Além disso, o ambiente de inflamação crónica que está
associado à obesidade pode afetar todo o sistema gastrointestinal, aumentando o
risco de pólipos do cólon e reto, induzindo alterações na microbiota intestinal
e promovendo certos tipos de cancro digestivo.
Entre todas as doenças
digestivas com associação comprovada à obesidade, qual considera ser a mais
negligenciada ou subestimada pela opinião pública?
Provavelmente é o “fígado
gordo”, tecnicamente denominado doença hepática esteatósica associada a
disfunção metabólica. Por uma questão de simplificação, utilizarei o termo
“fígado gordo”. Apesar de o fígado gordo afetar cerca de 1/3 da população
mundial, tem sido negligenciado não só pela opinião pública, mas sobretudo pela
comunidade médica. A maioria dos médicos desvaloriza o achado de esteatose
hepática numa ecografia abdominal ou noutro exame de imagem. Isto leva a que os
doentes, naturalmente, também esqueçam este assunto. Como não dá sintomas nas
fases iniciais, o fígado gordo é frequentemente ignorado até atingir estadios
avançados, como a cirrose ou cancro do fígado, onde as opções de tratamento são
mais limitadas.
Felizmente, tem havido um
alerta pelas sociedades internacionais e nacionais de doenças hepáticas,
justamente para promover o diagnóstico e estadiamento desta doença.
Ainda
existe a ideia de que o 'peso a mais' é uma questão estética. É importante
esclarecer de que a obesidade é uma doença por si, com impacto direto em
múltiplos órgãos.
Na sua experiência clínica, os
doentes reconhecem o excesso de peso como um fator de risco autónomo, ou só o
valorizam quando já coexistem sintomas ou diagnósticos adicionais?
A minha experiência é que a
maioria dos doentes desvaloriza o excesso de peso. Alguns já tentaram perder
peso sem sucesso e acomodaram-se à ideia de que é uma situação irreversível.
Quando não é. A obesidade é um fator de risco modificável, por isso vale a pena
tratar.
Ainda existe a ideia de que o
“peso a mais” é uma questão estética. É importante esclarecer de que a
obesidade é uma doença por si, com impacto direto em múltiplos órgãos. Mas
penso que o panorama é animador, com uma população jovem mais informada e preocupada
com a sua saúde, que já nos procuram em busca de soluções seja medicamentosa,
cirurgias ou procedimentos endoscópicos, aliados a alterações do estilo de
vida.
Cuidar do
peso é também cuidar do sistema digestivo
A Sociedade Portuguesa de
Gastrenterologia reconhece hoje a obesidade como uma doença crónica, e não
apenas como um fator de risco. Que implicações tem esta mudança de paradigma na
abordagem preventiva e terapêutica das doenças digestivas?
Sabemos hoje muito sobre a
obesidade, nomeadamente o impacto significativo que a microbiota e a genética
têm no seu desenvolvimento. Esse conhecimento que acumulámos sobre o que é a
obesidade permite-nos vê-la como uma doença e não apenas como “culpa do indivíduo”.
E essa visão muda tudo: promove uma abordagem mais empática e contínua.
Porque existe muita
discriminação das pessoas com excesso de peso e obesidade, que frequentemente
têm sentimentos de vergonha e culpa. É nosso dever como Sociedade, com base na
evidência científica que dispomos, contribuir para mudar este cenário.
Por outro lado, precisamos de
cuidados de saúde integrados —nutricionistas, psicólogos, médicos de várias
especialidades como médicos de medicina geral e familiar, medicina interna,
gastrenterologia, endocrinologia, cirurgia. Mas sozinhos não vamos conseguir
lutar contra esta pandemia da obesidade. Tem de haver envolvimento de políticas
que apoiem estilos de vida saudável, a começar nas escolas, com alimentos
frescos e saudáveis, incentivo à prática regular de exercício físico. É
necessária uma estratégia de prevenção a longo prazo, para podermos prevenir
complicações graves associadas à obesidade.
O rastreio do cancro
colorretal inicia-se, por norma, aos 50 anos. À luz da crescente incidência em
pessoas mais jovens e do papel da obesidade nesse contexto, seria pertinente
antecipar essa idade para grupos de maior risco?
Sim. A obesidade está ligada a
um aumento de casos de cancro do cólon e reto em pessoas mais jovens. Alguns
países já recomendam o rastreio do cancro do cólon e reto mais precocemente, a
partir dos 45 anos. Esta discussão deve também acontecer em Portugal, tendo em
conta os dados mais recentes.
Se tivesse de condensar a
presente campanha de consciencialização relação entre a obesidade e as doenças
do aparelho digestivo numa única mensagem-chave dirigida à população
portuguesa, qual seria?
Cuidar do
peso é também cuidar do sistema digestivo
Apesar do crescente discurso
em torno da nutrição, sente que o tema da alimentação continua, na prática
clínica, a ocupar um lugar secundário? O que seria necessário para mudar essa
realidade?
Infelizmente, a nutrição ainda
ocupa um lugar secundário. Apesar de se falar cada vez mais de nutrição, o
acesso a nutricionistas não é fácil sobretudo no sistema nacional de saúde e os
profissionais de saúde têm pouca informação sobre nutrição de uma maneira
geral.
Mas este não é o único
problema. O problema começa antes, na construção dos hábitos alimentares,
especialmente nas crianças e adolescentes. E aqui a publicidade e a comunicação
social exercem um papel central. Não é segredo que a indústria alimentar investe
milhões em campanhas que promovem alimentos ultraprocessados, ricos em
açúcares, gorduras, sal. Estamos a falar de alimentos apetecíveis, seja pelo
baixo preço, embalagens chamativas, práticos, com grande prazo de validade.
Estes produtos substituem refeições equilibradas diariamente por opções pobres
em nutrientes e elevado valor calórico. Está demonstrado que a exposição
frequente a este tipo de publicidade contribui significativamente para aumento
da obesidade e de doenças associadas.
Por outro lado, a
desinformação é muita na comunicação social e nas redes sociais, com dietas da
moda e produtos milagrosos.
Algo tem sido feito,
nomeadamente a nível nacional, com a criação do Programa Nacional para a
Promoção da Alimentação Saudável (PNPAS) da Direção Geral da Saúde, com a
implementação do Nutri-score para fornecer ao consumidor informação simples
sobre o valor nutricional dos alimentos. Mas não chega. Precisamos de mais
medidas. É necessário regulamentar a publicidade de produtos alimentares
especialmente aqueles dirigidos para o público infantil, incentivar consumo de
alimentos frescos e naturais nas escolas e nas casas dos Portugueses.
Entrevista a: Joana Gameiro
Nunes Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia
Fonte: Sapo on-line Saúde





















